sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Tudo novo!

Depois de tantos anos desprezando uma tradição de reinício da contagem dos 365 dias que completam um ano, dei-me por conta que todo mundo merece uma segunda tentativa, um recomeço... E vai ser assim: uma nova forma de me dar um "novo".
Já conheço todos meus erros, todos meus pontos fracos, todas as gotas do piso molhado que me fizeram escorregar; agora é aproveitar que estou melhor, mais forte, menos bêbada, acordada de verdade... e abrir na neve o sorriso que tanto quis dar e receber.
Diferentemente das agonias por quais passei na virada deste velho ano, esse que virá já me nutre de expectativas e energias.
NADA vai me desalinhar! O futuro, eu aprendi a escrever com a própria força do meu punho, com a plena consciência do meu organismo, sem nenhum tipo de coação - nunca mais...


(Feliz Natal e que 2012 venha repleto das melhores surpresas)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

... Grande.

Eu posso deixar esse lugar, mas a dor que ele me trouxe vai me acompanhar até o fim dos meus dias.
E o que fazer quando o maior acerto vira o pior erro?

O palhaço pinta um grande e colorido sorriso para esconder a falta, na expressão fatigada e triste. Os olhos deságuam rio, mar, oceano.. Luta contra todas as dores e anima a todos, cativando o que, de fato, ele não pode oferecer: um amontoado de músculos unidos a grunhidos felizes.

É verdade: nunca terei ninguém como te tive. Ninguém será melhor em nada. O nível de superação foi altíssimo, portanto, Parabéns! Foste, de longe, a maior felicidade e o sofrimento mais grosso que tive e que, preciso acreditar, terei. Pinto meu nariz de vermelho já; dessa forma, consigo camuflar as lágrimas frente à essa imensa decepção.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Mini-história

Eram anos em desconhecimento quando, de repente, se reencontraram em um verão. Passou outono, inverno, primavera... outro verão que findava e ela, num surto de felicidade incontestável, o abraçou e disse, com olhos transbordando vontades, "Menino, casas comigo, não é?". Ele, em silêncio e cabeça baixa, negou-lhe as palavras que a mocinha queria ouvir; ao mesmo tempo, ao pé de seu ouvido, seus lábios encostaram em carne para sussurrar "Não antes de ter certeza que queres ser minha, pequena."
Os dois passaram juntos ainda muitos invernos, outonos, primaveras e verões.
Honestamente? Eu, em meu particular, acreditaria no que ainda está por vir.. mas o amor um dia morre e se deteriora junto com os corpos - parque de diversões para larvas e fungos - enquanto as estações perduram sob os desejos descomedidos de enamorados bestas.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

How high is the sky?

Pronto. Admito: tenho saudades. Tenho saudades e quero te ver e te ter e te beijar e te cheirar e me entregar. Em tempo integral.
Através de união de palavras, olhares, toques, lábios e línguas, silêncios... a minha confusão frente ao que tu sentes; teu esconderijo atrás de uma máscara dourada e mal polida: essa incógnita da timidez. Cada demonstração contida me engloba em agonias e elementos volitivos incomparáveis.
Sim! É para ti que me disseste que desejavas dormir com meu rosto encostado no teu peito, enrolados em nada, apenas em um enlace envolvente de pernas - admirando o dia amanhecer. [referência] Sim! É para ti que me sustentas o peso morto do corpo apenas com um sorriso brando, mesmo que no escuro.


Contigo, aprendi a ver o dia começar, me trazendo mais satisfação que o pôr-do-sol envolto por águas... Se tudo inicia bem, como pode terminar mal?
("How much do I love you? How high is the sky?")

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Un peu plus de tout.

De um sorriso encabulado ao rubro espontâneo de minhas bochechas, te persigo.
Os olhos leves de uma nova vida. La poitrine qui demande ton corps. Um brincar de dedos... une bataille entre les anneaux d'argent. Abaixei o rosto para não facilitar as memórias e, me abraçando, lembrei do calor que depositaste em mim a cada gesto de cuidado.
C'est quand je ne me permet pas sentir que je sais très bien que tout est déjà perdu. E por que não deixar embaraçar os cabelos? O sol afogado pela luz cega da lua... C'est comme ça: mort et heureux.
Das palavras ecoantes na noite tão longa, o grito das matizes vermelhas do nascer do sol: Notre silence.
Pega o cálice de vinho, acende o cigarro... o dia tá amanhecendo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Precipício

É esse precipício que me lambe a sola dos pés, me nocauteia de vertigem, me atiça ao chão lá onde as pessoas são miúdas. Vem subindo pelo meu corpo, escorrendo em suor das coxas ao pescoço; balançando o cabelo úmido, a respiração pesada ao pé do ouvido. Vem e diz que não importa o mundo! É só sentir a adrenalina mordiscando os dedos das mãos, esticando a coluna, arrepiando cada poro.
É um amante, mãos novas.. um novo tom de batom, uma nova meia-arrastão... o mesmo jeito de olhar pro precipício.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Des-semelhanças

Era na beira da estrada que se observava, com muita glória, o contato - quase pecaminoso - do sol com as águas das plantações de arroz. A criança, dotada de ingenuidade, analisava aquela produção humana como divina: extensos caminhos espelhados virados para o céu azul de nuvens gordas. Piscavam os olhos incomodados pela frenética lambida do dia ensolarado em suas pupilas; quis ver-se por entre o firmamento solidificado nas águas frescas.



A menina acabou enlameada pela descoberta que fizera: as coisas belas necessitam de uma apreciação longínqua - sem toques ou respiração próxima. Nem tudo vai de encontro à rudeza do traço quando analisado de perto... transcende, na realidade: a podridão consome a subida das curvas, por entre as pernas, o olhar límpido igual ao das águas esconde muito além de mentiras...

Heartbreaker


Hey fellas, have you heard the news?
You know that Annie's back in town?
It won't take long just watch and see
How the fellas lay their money down


Her style is new, but the face is the same
As it was so long ago
But from her eyes, a different smile
Like that of one who knows

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Constitucional (PARTE 1)

Era uma vez um giz amarelo...
E ele sonhava em se tornar um giz branco, pois o branco era tratado com respeito, utilizado por pessoas sérias; já ele era uma piada, da cor que as pessoas menos gostavam. Cor de urina.
Um dia, ele foi conversar com o giz branco para descobrir o segredo do sucesso... , porém o giz branco nem sequer falou direito com ele: não conversava com gizes inferiores, que eram de outras cores. Decepcionado, o giz amarelo se afastou envergonhado pela sua cor. Quando estava próximo do seu lado do quadro negro, ele se viu cercado pelo giz branco e seus outros amigos brancos.
De repente, o giz branco gritou "QUEBREM ELE!", e todos juntos atacaram o indefeso giz amarelo. Ele tentou se defender, mas foi inútil. Quando eles terminaram, ele não passava de poeira.
O quadro negro, que fora testemunha ocular do crime doloso quinquamente qualificado, resolveu vingar a morte do amigo colorido, responsável pelos sóizinhos com rostinhos felizes. O quadro negro jurou morte lenta aos gizes brancos.
Ele contratou um profissional para o trabalho, já que havia pouco que ele pudesse fazer. Pagou o apagador para que ele vingasse o seu amigo.
Na calada da noite, o apagador fez o seu serviço. Usando das suas partes de madeira, quebrou cada um dos gizes brancos. Mesmo que eles tentassem fugir, o apagador seguiu seus rastros de giz e os apagou de uma vez por todas.
Não adiantou. A administração da escola comprou mais um pacote de gizes brancos. O quadro negro chamou seus amigos giz rosa, azul e verde para travar a revolução mais sangrenta de todas!

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

a little more for your little you

"(...)
E talvez você esteja bem

E talvez eu não tenha a menor idéia
É, talvez preto seja branco
E talvez preto seja branco também
Mas é tudo a mesma coisa
Você não entende a situação em que se encontra
Você mordeu a isca, e agora é tarde demais
Você não deu certo
Olhe só pra você
Você tinha os maiores planos
mas nenhum jeito de realizá-los
Foi tudo uma encenação
E agora você não consegue se ater aos fatos
(...)"

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

sábado, 3 de setembro de 2011

Partout, (mon) soleil.

O Sol trouxe aquele ar de (quase) primavera: frágil, saltitante. Senti que o perfume que me acompanhou já não resvala junto ao vento. Não te sinto mais por aqui... nem tu, nem tua falta.
A luz mexeu na minha íris, desembaraçou o embalo dos meus cabelos, entrou por baixo da minha blusa, te apagou da lembrança. O mar ondulou os meus traços em suas ondas, enganou a espuma no sal da minha pele. Desabrochou em mim a felicidade única de te abandonar onde tu quiseste desaparecer.
O horizonte, fixado atentamente pelos olhos sépia de Ernesto, coloriu-se em matizes azuis alaranjadas, enganou a bruma, me forçou a respirar.. finalmente.

Sigo desfrutando tal experiência única, todas as manhãs, os raios dourados no meu íntimo. Ladainha.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

efêmero

À meia-luz, o nariz ríspido e pálido apontava as gotas mansas da chuva que escorriam pela janela. Aquela tez, tão branca, iluminava em forte contraste à carne abundante dos beiços róseos. O olhar emoldurado em castanhas tornaram-se olivas. Os minutos de atenção que a estrada repousou em ti também me lamberam a sola dos pés...
Tirar a venda que te cobre inteira... Acabar com o silêncio do tato das íris - com um piscar, um ruído breve, um escorrer de dedos por cabelos... Fazer-te perder a graça por meio do conhecimento de intimidades: o sorriso.
E a lâmpada que te desenha apagou. Desapareceste. Entendi que minha estação, diferente da tua, agonizou pela falta do teu pisar... Seguiste a estrada; fiquei para beijar a garoa longe da vidraça.

sábado, 6 de agosto de 2011

07/01/2011

Em altíssima velocidade, a noite me carrega para Strasbourg. Dois homens, trajados de preto, em minha frente, trabalham com seus computadores portáteis - prova de que o tempo não pode ser desperdiçado. Dedos voluptuosos em contato com as teclas, olhos espantados com informações: expressões, ao meu ver, prazeirosas. É nesse exato instante que foge-se da futilidade do dia-a-dia, envolto por seus lenços de cores multicolores.
O preto, então, não quer significar o luto, a tristeza.. precisa mostrar que remete à seriedade que cada gesto - profissional ou não - representa. Mostra classe e elegância; a postura que a menina (desejosa de se desenvolver mulher) busca no seu andar.
E foi com dois homens, trajados em preto, que fui contemplada para descansar os meus olhos da paisagem escurecida pela noite que se apresenta através do vidro da janela...

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Vicky Cristina Barcelona

'Cristina largou Juan Antonio e Maria Elena. Fugiu para a felicidade dela, sozinha, independente. Voltou para o que era concreto. Se desprendeu com intenção, correu para a voz de seus projetos futuros... Foi lá longe que percebeu que a fumaça - que dança e se insinua aos olhos cálidos e se esconde na captura da lente - se esvai igual o sentimento que outrora quis manter. Cristina continuou buscando aventura... Maria Elena ficou esperando ela voltar.

"Muitas pessoas desejam mais da vida e não sabem exatamente o que é." - Woody Allen

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Quando eu vou pra fora..

As árvores já enegrecidas dançavam com o vento, contorciam em sentimento. Enquanto o orvalho já lambia o asfalto, aquela borra tinta passeava frente aos meus olhos, escondendo-se lentamente no marinho pontilhado de estrelas. Aquela sensação, que deveria ser boa, caiu pesada em mim, enroscou nos cabelos, cerrou as pálpebras, quis de novo a liberdade iluminada e zonza do vaga-lume.

Ficou na retina a menina a brincar por aqueles lados, o cheiro da terra úmida pela manhã, das uvas quentes, do fogão à lenha. O tempo em que se ouvia risos, que o merengue ia pro forno de pedra, quando se chupava cana ao fim da tarde... a roda de mate, a máquina de fazer quirela, a árvore de laranja azeda, a tinta rosa que descascava na parede, o barulho da chuva caindo no telhado de zinco...

Nem mais o sorriso é igual e até as memórias são mais coloridas.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

Completo Inútil: Aos meus amigos.

Completo Inútil: Aos meus amigos.: "Melhor se ouvido com esse som da Veraloca : Aos meus amigos Sei que é clichê comum [já perceberam quão clichê é dizer que uma coisa é ..."

terça-feira, 19 de julho de 2011

Sinta vontade de ficar.

Fique a vontade meu bem!
Sinta vontade de ficar..
Não tenha pressa
Quem sabe aqui é seu lugar?
Me mostra tua coragem:
Vai, leve tudo de mim,
Apague os passos da estrada,
Tente nem se
quer lembrar
Daquele nosso tempo
O qual era tão fácil amar...

segunda-feira, 11 de julho de 2011

(con)fusões

Só quis trocar as sapatilhas e recomeçar uma nova dança de uma antiga coreografia.
Da minha decepção com o mundo, descobri que olhar o pôr-do-sol em meio à tua pupila escura me faz querer estar presente em tua íris.

Em muitos metros de altitude, eu quis aquela lagoa, aquele brilho alaranjado de reflexos, as ondas a hipnotizar meus pensamentos: a paz da tua presença... Porque difícil é dormir com a mente agitada em dores submersas.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Hors de Question.

Já não tem mais definições. É só um corpo atirado de qualquer maneira, sofredor, em meio a um colchão ruim. A palidez seletiva das moscas, um lacre semi-rompido na visão. Era um corpo e nada mais.
Do que serve falar do sorriso que dava, do olho que brilhava ou da pele que incendiava?
Ficou ali, estatelada como morta: ninguém teria capacidade de erguê-la, de limpar suas feridas, de sentir algo por aquilo que representava naquele instante.
Quis ser bonita e perdeu o controle na altura do seu salto. Quis casar, mas cansou de deparar-se com a Sra. Insatisfação negando-lhe os sonhos. Já não tinha controle sobre a febre, a regulação da intensidade da cefaléia.
E do jeito que caiu, ficou. Ninguém jamais se questionara. Empecilhos trazem sorrisos junto às dores - ninguém sofre sem delírios tortos.

domingo, 19 de junho de 2011

Para a minha união estável.


Eu o vi vindo: atravessava a rua para me encontrar. Não contive o choro soluçado e as lágrimas que escapavam descontroladas fizeram-me abaixar o rosto. Ele me abraçou e seu timbre carinhoso exclamou baixinho “Não precisas mais chorar. Eu estou aqui.” E foi então que eu entendi que estava tudo bem e que nada mais interferiria na minha felicidade com ele.
Decidi aceitar o fato que os olhos considerados eternamente vazados encheram-se do brilho mais sincero, rechearam-se de sorrisos orgulhosos em meio à vida que (re)começava. Foram muitas dúvidas, mas o pé encontrou o chão assim que começou no seu primeiro caminhar – e a jornada seguiu lindamente.

Hoje me encontro cada vez mais perdida no castanho desse teu jeito de me olhar, tão malicioso, confortável e seguro. E não quero estar contigo para o resto da minha vida: quero estar com tuas histórias, tuas risadas, o teu eu comigo; quero estar vermelha de raiva discutindo e te perceber risonho de nervosismo; as nossas intimidades restritas ao sonhar em meio aos teus braços, às situações esdrúxulas com desconhecidos da rua, ... Bububububububu. Te amo.


sábado, 4 de junho de 2011

Metamorfose.

Qual menina que, quando nova, não roubou o batom vermelho da mãe e se pintava - praticamente a cara toda?
Eu roubei e escondi. Mamãe dizia que eu poderia usar quando fosse mais velha. Esperei por anos e perguntava para ela se já era o momento certo... sempre ouvi "Fica feio.. espera um pouco mais..".

A menina que habita em mim resolveu sair para passear. Na loja de cosméticos, fui atraída apenas pelo famoso batom vermelho. Em uma atitude muito madura, comprei.
Foi quando cheguei em casa que, escondida - mais uma vez -, pintei meus lábios daquele encarnado tão atraente. Só alguns meses depois, porém, que a menina entendeu que já era mulher e que podia se dar ao luxo de usar aquele disfarce sedutor sempre que quisesse. Assim, o blusão de linha fina e branca juntou-se ao lenço preto de bolinhas igualmente brancas, o cabelo dourado e o olho azul - tão apagados na lineariedade da tez clara - contrastaram com o acréscimo da cor nos lábios em sua nova composição.
De repente, perdeu o brilho o fato de perceber que já ser mulher é poder desfrutar do que a menina ainda taxa como "proibido".
Ser criança vai ser - SEMPRE - mais divertido.

sábado, 28 de maio de 2011

MULHER

"Ser mulher é para Sabina uma condição que ela não escolheu. O que não é conseqüência de uma escolha não pode ser considerado nem mérito nem fracasso. Diante de um estado que nos é imposto, é preciso, pensa Sabina, achar uma atitude apropriada. Parecia-lhe tão absurdo se insurgir contra o fato de ter nascido mulher quanto se glorificar disso.
Num de seus primeiros encontros, Franz lhe disse com uma entonação singular: 'Sabina, você é uma mulher'. Ela não compreendia por que ele lhe anunciava essa novidade no tom solene de um Cristóvão Colombo que tivesse acabado de avistar a costa de uma América. Só mais tarde compreendeu que a palavra mulher, que ele pronunciava com ênfase especial, não era para ele a designação de um dos dois sexos da espécie humana, mas representava um valor. Nem todas as mulheres eram dignas de ser chamadas de mulheres."
(KUNDERA, Milan, "A insustentável leveza do ser". São Paulo: Companhia das Letras, 2008)

domingo, 22 de maio de 2011

La vie en rose

Não é o que diz respeito às coisas que ficam ou às coisas que somem... São mundos que se encostam, deprimem, abalam... A dicotomia exagerada de extremos sem intercalações.
A paz encontrada no sono eterno estremesse a vida dos que ainda enxergam. Rolam as lágrimas por sobre as flores que apodrecerão junto ao novo leito.
Não é querer explicar como se deve dar valor às coisas que temos. A apreciação de cores, sons, sentimentos... "Como se não houvesse amanhã..."

Não vi rostos pálidos, entreguei-me em abraços calorosos, esgotei minha força e energia a fim de tentar erguer àqueles que sofriam. E todos, sem exceção, carregavam pesadamente o ar da dor: as faces contorcidas e molhadas, as mãos insatisfeitas de mexer com nós, os olhos mortos em uma única direção... a incompreensão óbvia da efemeridade.

domingo, 8 de maio de 2011

"postmortale"

Uniu-se o meu sangue ao sangue dela. Um corte limpo resumindo tristezas. Marcas eternas.

O homem do terno escuro não pode mais ficar com a menina do jeans rasgado. Ela sentiu necessidade do abraço que ele não tentou dar. O "sim" que ele tanto quis ouvir ecoou por dentro dela tal qual grito de torcida perante gol. Estufou o peito, abriu a boca e... esvaiu-se em palavras inaudíveis. Desfez-se em lágrimas.
Os pés dele seguiram o rumo que a indecisão dela obrigou a percorrer. As dores do "não saber".

E eu fiquei sentada no meio-fio, o amor escapando pelos meus olhos.
A água diluindo o vermelho do corte.

terça-feira, 3 de maio de 2011

22\dez\2010


Aqueles pedacinhos de bolinhas brancas se desprendiam da negritude do firmamento chamado "infinito" e caíam em rodopios bêbados por tudo quanto era direção: acertavam as folhas superficiais dos pinheiros, as ruas, os carros, a minha cabeça e as de tantas outras pessoas. Agora, já não quero falar de sensações, mas de uma regresão ao meu eu correspondente àquela menina de dois/seis anos de idade. À transformação repentina dos olhos cansados de mulher para os brilhosos de criança frente à imensidão da Mãe Natureza.
No ônibus, voltando para CASA, a paisagem é acolhedora: todo o branco da neve servindo de cobertor para tudo o que havia pela frente. Reina soberanamente aquele acolchoado - e não cessa a sua construção.
A neve, que demorou tanto para mostrar a sua face para mim, resolveu apresentar-se. Mas não fora uma aparição encabulada... Esta dama albina surgiu com todas as suas madeixas à mostra, seio descoberto e sorriso nos lábios pálidos e úmidos. Aceitou a nudez para que eu pudesse deslumbrá-la inteira.
Ela não é uma menina. É, definitivamente, mulher! Bem sabe, por isso, que as coisas feitas, apresentadas e sentidas pela metade, não valhem tempo de desperdício; nem para, ao menos, tentar encontrar o que (ou quem) as complete.

sábado, 30 de abril de 2011

Swan Lake

"- É sobre uma rapariga que se transforma em cisne, e precisa de amor para quebrar o feitiço. Mas o seu príncipe apaixona-se pela rapariga errada... E ela suicida-se.
- Não parece ser feliz.
- Na verdade, é lindo!
(...)
Saboreia a brisa, toca-a. Demonstra confiança. Tens o coração destroçado, ferido, a força da vida foge, o sangue pinga.
O cisne negro roubou-te o amor, e só há uma forma de acabar com a dor. Não tens medo, mas está resignada.
Olhas para o teu mundo a desfazer-se e, num vislumbre... E então sim, o público. E então, saltas!"
Pois bem! A cisne branco comete  suicídio... E depois? E o príncipe e a cisne negro? São felizes para sempre? Ele percebe que fez a escolha errada? E, se percebe, mesmo assim, continua a manter seus passos, pisando freneticamente na mesma ripa de madeira podre do chão? E será que, depois de um tempo, a cisne negro não percebe que a inveja que a fizera outrora roubar o príncipe, já não faz dela tão feliz? Justamente ela, que o destino lhe fizera relativamente má para dar à cisne branco seu aspecto de mártir... Para seduzir e ser livre (ou eternamente sozinha)...
Contam-nos uma história e esquecem de concluí-la. Nada termina com um simples "FIN", queda de cortinas vermelhas, agradecimentos, flores, sorrisos... Os espectadores recebem meias-emoções e se dizem satisfeitos. Ora, satisfação vai além de uma bela apresentação com passos cronometrados ao sentimento.
Sentir... viver... Aprender a deixar o príncipe de lado e unir os cisnes além do reflexo do espelho. Encarnar o sangue - sempre vivo - da ferida que mantém-se aberta pelas próprias unhas e delírios.
Eu, aqui, só queria saber o verdadeiro final da minha visão que se banha entre plumas e fitas.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Casamento.

Vai ser a distância que vai nos manter o elo de união.
O sorriso no rosto.
A dança sincronizada das vozes.
Carinhosamente...

Promessas além da possibilidade trazida pelos sonhos. (Realizáveis.)
A cegueira eterna da coloração das minhas bochechas...
O riso, finalmente, feliz!
 
Não me importa se em meses ou anos...
Reconhecimentos:


Lá onde junta-se o azul do céu e o verde do mar.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

"There is always hope" (?)

Era os olhos dela pregados em dor nos botões da roupa dele.
Na garganta, corriam todas as palavras que não ousavam ultrapassar a linha dos dentes. Cansara da falta de coragem, dos sonhos irrealizáveis. Aprendera, embora tardiamente, que só poderia seguir se o mar baixasse as ondas: o mar de dentro da sua íris teimou em olhar para longe.. justamente naquela nuvem negra que consumiam os dias de menina.
Desistira das promessas. A certeza que firmara ontem fluiu-se em imagem na superfície da água da banheira. Espumas, fumaças... o fogo que arde dolorido e sequer existe.

Sumiram as cores do meu mundo. Deixei-as apagar. O preto e branco sempre foi mais hipnotizador. Aceito confundir-me nos matizes incessantes de cinza. (...)Ser feliz serve para? Colorir? Perceber o sol? Ver - simplesmente?
Tudo o que quero, agora, é ser uma das curvas que o horizonte em planície me proporciona... Ou desembocar a caminhar sem rumo, como se a sina de Caim tombasse aos meus ombros. As metas, larguei-as no dia que te conheci.
Sigo o traçado que as formigas guiam. Mais nada.

sábado, 23 de abril de 2011

Das experiências.

O whisky desceu aveludado pela garganta, esquentando o corpo já ritmado na sensualidade da dança: a música de batida marcada em piruetas cegas e ondulações das linhas dos quadris. Deixou a cabeça erguer-se rumo às estrelas. Era livre! Finalmente, era livre! Livre das línguas que passearam pelo seu corpo, dos olhares que tombavam fortes sobre sua personalidade, das alianças que já usara, dos sentimentos que já sentira... A liberdade que assumia era a de abandonar-se completamente... Finalmente, a sensação de não pertencer a nada ou ninguém!
Durou segundos...
Passou a mendigar felicidade, carinho, rejeição, saudades. Quis encontrar um novo sentido para tudo. Viu-se por trás de grades amargas, revivendo, depois de tantas e incontáveis vezes, o passado extinto.
Resolveu deixar de olhar para aquilo que abandonou. Foca, agora, nas coisas que vai abandonar...

segunda-feira, 18 de abril de 2011

De repente, outrora.

Abre o olho incomodado pelo primeiro raiar de sol. O horizonte pintado de amarelo. A escuridão fugindo da brancura das nuvens. Os sonhos, ela deixou para a próxima noite. Primeiro passo para fora do seu mundo. O jeans rasgado pelo conhecimento que lhe trouxe as ruas estreitas, sem nome, longínquas da realidade rotineira.
Olha, já, para o reflexo indeciso do espelho. Cadarços desamarrados. Vermelhos. Pupilas negras consumidas entre íris vazadas. O tom de azul vivo em meio ao corpo pálido. Matizes russas de madeixas palha. Pisa na estrada como se a rua fosse propriedade de seus pés. A viagem machucou o corpo; a vida machucou-lhe a alma. Perdeu o brilho da retina, esqueceu em algum lugar a cor das bochechas, afundou no remoer tonto da cefaléia sem cura.
Os braços nus, o vento a morder cada pêlo do corpo. E morre, a cada dia que passa. Deixa-se morrer, como se o natural fosse se entregar ao vazio da indecisão. Sorri para os lenços descoloridos pelo tempo. A cada piscar, pisar, respirar, palpitar, ..., o único vomitar das indecências ardidas que lhe batem e cospem no rosto. A sutileza dos gestos apaga-se junto ao cinzeiro, derrete-se com o gelo do copo que não é seu.
Não existe mais uma menina. Fugiu de casa a mulher presa ao avental. Desapareceu na imensidão de quem realmente é (ou queria ser).


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Nonsense.

- "Mas, e por que não deixar a vida se encarregar de deixar passar?"
Foi o que disse ele, deixando escorregar sua mão pelo meu braço, tal seda arrepiando o corpo nu. Fecharam minhas pálpebras, como cortina que tomba grotesca rente ao fim de uma apresentação, encobrindo as gotas de choro incontido na irrazoabilidade de existências. Foi um desespero irrevogável, uma perda de ações impossível de encobrir as confusões que cada cílio, inutilmente, tentava conter.
Das mágicas inexplicações entre o desenvolver de sonhos e as sinapses nervosas, me encontrei perdida nessa lagoa tão morta que me olha todos os dias, analisando nossas rotinas diversas e peculiares de sermos quem somos.
Ele dignou-se de fazer-me rainha. E o beijo levou consigo um sorriso sincero, onde nem a temporalidade das palpitações conseguirão tirar o amargo que ficou no veneno da saliva. Os gestos, tão cálidos, eu os refaço diariamente, na depressão de pensar que me vigias enquanto durmo os meus cem anos de feitiço.
Bela adormecida, Aurora.

domingo, 10 de abril de 2011

Eu canto com toda a esperança azul

A princesa, de fios de ouro em seus cabelos e olhos vazados de ondas incessantes, descobriu a liberdade dentro da torre mais alta e inacessível da usual reclusão do castelo. Foi a partir desse momento que a venda que lhe cobria a visão fora retirada. A menina de tantos sonhos à espera de realização viu o mundo do jeito que sempre imaginara. Gostou. Quis mais.
Pintou os lábios de rosa, deixou o vento brincar com as madeixas.. Mostrou ao mundo a brancura de um sorriso inocente. Pela primeira vez, fechou os olhos porque quis: desimpedida.

Aos vinte, gozou da completude de ter quinze anos.


"Numa confeitaria, ou na danceteria, ou na bilheteria do cinema pra ver um filme de rock..."

sábado, 2 de abril de 2011

Telefonema

Quando o número desconhecido apresentou-se, não tive dúvidas e soube, desde o princípio, quem era que me ligava. A voz grave e rouca do outro lado apenas confirmou a certeza indubitável. Era ele, com seus olhos de flora viva, banhado pelo sol acima do trópico, para me declarar (e firmar) saudades.
As ondas dos meus olhos de mar vibraram e seguiram batendo rente à palidez da minha pele e dos momentâneos fluxos róseos que cada "amo você" fizeram aflorar de minhas bochechas.

"Me transportar em pensamentos
Seguir o rumo dos ventos
Tentar explicar o inexplicável
Mudar o sentido da razão para o provável
Encontrar o horizonte contente pela tua existência..."

A distância que nos separa hoje vai ser combustível para nunca mais deixar morrer.

terça-feira, 29 de março de 2011

a. (b.)

b.
 um passarinho baixinho e marrentinho me contou que tem alguém rabugenta de tpm essa semana
 e eu me pus a sorrir imaginando que tu deve ficar linda assim
 saudade, te amo (ainda que longe)

a.
Comprei o sabonete da marca Dove, porque ALGUÉNZINHA usava...
É o primeiro cheiro que sinto logo que acordo de manhã... (uma vez era o segundo, já que o aroma de café inundava o quarto ainda antes de acordar).
 Outro dia fiquei ali na frente do teu prédio com o T.; ambos olhando pra imensidão negra da noite acima do cemitério.  Até ri sozinha daquele poste baixinho, pintado esquisito, parecendo um marlboro tamanho família.
 "Saudades" é muito genérico para demonstrar o verdadeiro valor do que essa palavra realmente significa pra mim hoje.
 Te amo  (L)

sexta-feira, 25 de março de 2011

Descompasso

As férias que eu quis apareceram no momento mais inesperado do meu sentir: em meio a confusões de sonhos e aprimoramento de conhecimentos científicos, encontrei-me embebida em um abraço (aparentemente) eterno. Apesar dos olhos fechados decorrentes de um sono cansado, a cútis assistiu todo o deleite de estar naquele ambiente tão familiar e repleto de histórias particulares.
A casa na praia do meu verão não possui rastros de mar - a não ser aquele fixado no horizonte dos meus olhos. O sol é mais forte quando o relógio desperta meia-noite. A sincronia da dança só exige a música de nossas bocas e do (ainda não traçado) caminho a percorrer das gotas de suor. A areia morre no tapete...
Finda o domingo da minha quinta-feira. Volta a rotina a soprar os deveres do ontem, a perseguição de objetivos, a busca pelo reconhecimento de algo além do que vem dentro de mim. As faces corpulentas da dicotomia entre o sentir versus sentir.
De mar, só o céu com seu trajado de nuvens...

segunda-feira, 21 de março de 2011

Sala de Aula

(05/01/2011)
E eram quatro, naquela sala, a ressaltar vida sobre a minha atenção. Uma morena, um loiro, uma loira e um moreno. Os quatro unidos em carteiras duplas, sérios, escutando as explicações do professor...
O loiro era visivelmente mais novo e cochichava qualquer jogo de palavras no ouvido da loira que, muito concentrada, escrevia. Os rabiscos contidos naquele papel misterioso passaram aos olhos da morena, que deixou sua caneta correr uma reflexão complementar para o moreno ler. Findando as leituras, todos se olharam e balançaram a cabeça, concordando em conjunto, seguindo um sorriso.

Éramos quatro e éramos os mais felizes, no nosso tempo de escola...

quarta-feira, 16 de março de 2011

Carta ao que tenho em mãos.

Encontro-me em querer definir-te, vida... Sanguinária, mordes-me a mandíbula e rasgas minhas costas com teu peso - que não desejo deixar de sentir -, além de insistente  em desordem  ao arranhar as coxas, descobrindo que podes sentir o aroma de minha nuca durante meu sono. Fitas-me os olhos de maneira insistente... mesmo que eu queira procurar pedras entre a areia da praia ou imaginar os volteios do vento refrescante na noite sem neblina.
Do que eu deixei para trás, só tu te atreves a cuidar para que volte - ou não - em momento certeiro de predestinação: meu caminhar até o fim paciente e amargo. E sorrir para um mundo sem cores, tatear tuas mãos insensíveis para minha cegueira, abraçar-te como a nostalgia corrosiva que me habita... permite que deixe as relembranças de que passas por mim e marcas-me com brasas que não ardem...
A propósito das asas que descobri ter... obrigada por se unir a elas, vida, e lançar-me no mais alto do firmamento, de encontro aos sonhos que pensei que não tinha. Inesperadamente, meus olhos vazados, não podendo enxergar, conseguiram sentir o brilho do que é, verdadeiramente, a grossa nuvem escura que outrora chamei de "Sol".

segunda-feira, 7 de março de 2011

A união azulada de nossas íris deixaram para a noite da estrada percorrer a saudade de cada intenso momento em que existes na minha vida (presente ou não). Quis as coxas anêmicas me dando apoio feito travesseiro... deixar o vinho confundir as pupilas... me permitir a paz que só tu me trouxeste em tão pouco tempo de convívio, em tantos anos de presença em mundo.
A felicidade de te rever iguala-se à tristeza de te ver partir.

"The scars of your love remind me of us
They keep me thinking that we almost had it all
The scars of your love they leave me breathless
I can’t help feeling"
("Rolling in the deep" - Adele)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Between the bars

As papilas gustativas trouxeram à minha memória todas as histórias vividas no escuro daquele lugar que adotei como "lar". Éramos três e nos amávamos igualmente e de formas diferentes. Igualmente e numa intensidade extrema, capaz de marcar cicatrizes que nunca desaparecerão da carne e do cerne.
O sorriso nunca foi tão sincero. O sono não marcava presença. Éramos felizes em nossa imensidão de sentimentos atordoados. Éramos especiais como nunca mais seremos. Os cuidados, aflitos e sedentos, sempre transbordaram daquela cama para o céu negro e iluminado pela pálida luz da lua.
Hoje, ao querer tentar esse sorriso, faltam as verdadeiras alegrias... as lágrimas grossas tornaram-se as melhores companheiras. As coisas simples perderam efeito: o vinho virou água, a noite traz o sono outrora inexistente, as dores recomeçam a arder. Apenas as músicas mantêm o sentido de cada momento, cada carinho...
A vida mostrou-se como deve ser vivida e debochou dos que nunca sentiram tamanho prazer nas linhas de cada boca. Dentre nós, ninguém mais é como era.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

"Suicides"

"Depuis quelques années déjà un phénomène se passe en moi. Tous les événements de l'existence qui, autrefois, resplendissaient à mes yeux comme des aurores, me semblent se décolorer. La signification des choses m'est apparue dans sa réalité brutale; et la raison vraie de l'amour m'a dégoûté même des poétiques tendresses.
Nous sommes les jouets éternels d'illusions stupides et charmantes toujours renouvelées.
(...)
Chaque cerveau est comme un cirque, où tourne éternellement un pauvre cheval enfermé. Quels que soient nos efforts, nos détours, nos crochets, la limite est proche et arrondie d'une façon continue, sans saillies imprévues et sans porte sur l'inconnu. Il faut tourner, tourner toujours, par les mêmes idées, les mêmes joies, les mêmes plaisanteries, les mêmes habitudes, les mêmes croyances, les mêmes écoeurements.
(...)
Je cherchai ce que je pourrais fair pour échapper à moi-même. Toute occupation m'épouvanta comme plus odieuse encore que l'inaction.
(...)
Oui, oui, les morts reviennent, car je l'ai vu. Notre mémoire est un monde plus parfait que l'univers: elle rend la vie à ce qui n'existe plus!"

(GUY DE MAUPASSANT)

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Senti saudade de quando eu gostava do banho de mar; do sol que queimou meu rosto; das lágrimas despejadas por antecedência.. o medo de partir. Senti vontade daquele abraço apertado, das noites que cuidei do teu sono inquieto, daquele chimarrão amargo na frente da casa enquanto anoitecia...
Saudade? Saudade vem e vai e vem e vai e vem e  vai e vem e vai e vem e vai ........
e vai..........
e vai......... até que a gente se acostuma. Congela. Finge que deixou de sentir.

E foi.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Vaga-Lume

A noite, com seu hálito quente de verão, envolveu completamente o meu corpo e fez da minha íris, espelho das estrelas brilhantes. Do verde da grama, surgem em animada coreografia, dois vaga-lumes, trançando harmoniosamente a paz por entre o sereno. Delicadamente, o contraste daquele brilho com a escuridão pousa em uma das minhas coxas. Piscavam, na intrigância do meu ser, os nebulosos pensamentos de felicidade constante - assim como aquela luz límpida - que se erguem além das nuvens escondidas e repousam nos olhos daquele homem de futuro tão incerto quanto os primeiros passos de criança.
Contemplei a brisa suave, deslizante pelo meu colo, arrepiando tal qual dedos carinhosos sem rumo pela espinha. A Lua brilha mais que o Sol.. e me ama, e não me machuca.. As anemias, confundidas entre minha pele e aquele desfrutar de sonhos, foram engolidas pelo intenso olhar que nunca vi.
Por enquanto, deixo-me contentar inteiramente com o sorrir inexistente dos vaga-lumes.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

This place was never the same again after you came and went

Abruptamente, aquela música tão esquecida, voltou a mexer sensações com meus tímpanos. Sem perceber, já havia me transportado para aquele quarto de horas tão lindas que passamos juntas.
Era o meu riso que dava as mãos às gargalhadas que aquela mulher deixava escapar, relativas às suas - nada úteis - tentativas de fuga dos malabarismos das minhas mãos. As cócegas deixavam-na radiante! Nesse momento, já não éramos duas irmãs, nem duas amantes.. éramos crianças, brincando de viver os últimos momentos - que não admitíamos chegar - da convivência mais nobre e digna que oferecemos uma para a outra e aceitamos merecidamente.

"Look to the past and remember and smile
And maybe tonight I can breathe for a while
I'm not in the seat I think I'm falling asleep
But then all that it needs is I'll always be dreaming of you"

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

28/01/2007

Escuto o proclamar das tuas juras
Secretas ou indiscretas
Satânicas ou divinas, nuas ou puras..
Revivendo cada vírgula da tua respiração,
Sussurrando o tempo, a razão, o vento...
Despida de argumentos, vejo meus olhos mortos
E a malícia do sorriso
E as marcas de agressividade nos carinhos.


Se quiseres descobrir a vampira dos desejos
Não te esforças! Não me procures!
Estou carne e alma reproduzida no teu sono,
(Cujo trilar dos grilos darão motivos para ti sonhar

sendo sinal, apenas, da caça e do lobo...)
Onde todo o desespero resume-se ao verbo:
AMAR.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

As mulheres francesas

É como se eu estivesse patamares abaixo do que este lugar representa. É tudo como era, mas eu não sou mais como eu deveria ser para estar aqui. Eu, pobre criatura, desejando cada uma delas ao mesmo tempo que passo a desejar ser todas elas.
São todas iguais: o jeito de andar - passo firme, coluna reta e queixo erguido-, magras, exibindo a todos, o charme de serem mulheres francesas. Cada fio de cabelo fora do lugar ainda é o lugar certo que estes devem se encontrar. Elas são sensuais, sérias, ríspidas, estilosas, tensamente lindas. Lindas, misteriosas e fúteis.
Mulheres assim são merecedoras de rosas bem embrulhadas, como estas que o menino leva contente em suas mãos magras e geladas. Meninos na idade deste, têm os olhos vazados por sonhos e dependem das mademoiselles para poderem tentar enxergar a neve que começa a cair lá fora.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Olhos verdes e risadas sinceras. Histórias e mais histórias caindo nuas e inteiras sobre mim. A atenção nunca teve um trabalho tão importante. O sorriso, indeciso por aparecer, se abriu como as flores na primavera. A menina, que também é mulher, abraçou o momento como quem aceita a predestinação de qualquer possível futura dor. É um novo já antigo, descobertas já conhecidas, o jogo favorito.
As paredes brancas de teu quarto contrastam com o cinza do meu céu... Enquanto isso, uma lagartixa passeia por cima do colchão...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Probabilidades

Creio que a recompensa do amor
É o sofrimento
Sei que o sinônimo de dor
É o desalento
Quero acreditar na possessão do seu eu
(Não ser como as outras...)
E não conhecer o poder do adeus
Ao menos, não dos lábios teus..

Palavras loucas.
(13.abr.2006)

domingo, 6 de fevereiro de 2011

L'invitation au voyage

"Des rêves! toujours des rêves! et plus l'âme est ambitieuse et délicate, plus les rêves l'éloignent du possible. Chaque homme porte en lui sa dose d'opium naturel, incessamment sécrétée et renouvelée, et, de la naissance à la mort, combien comptons-nous d'heures remplies par la jouissance positive, par l'action réussie et décidée? Vivrons-nous jamais, passerons-nous jamais dans ce tableau qu'a peint mon esprit, ce tableau qui te ressemble?
Ces trésors, ces meubles, ce luxe, cet ordre, ces parfums, ces fleurs miraculeuses, c'est toi. C'est encore toi, ces grands fleuves et ces canaux tranquilles. Ces énormes navires qu'ils charrient, tout chargés de richesses, et d'où montent les chants monotones de la manoeuvre, ce sont mes pensées qui dorment ou qui roulent sur ton sein. Tu les conduis doucement vers la mer qui est l'Infini, tout en réfléchissant les profondeurs du ciel dans la limpidité de ta belle âme; -et quand, fatigués par la houle et gorgés de produits de l'Orient, ils rentrent au port natal, ce sont encore mes pensées enrichies qui reviennent de l'Infini vers toi."
BAUDELAIRE, Charles. "Le Spleen de Paris - petits poèmes en prose"; Librio, Paris, 2002.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Marina.

Quis ficar uma hora a mais, mas não me autorizaram. Tiraram-me do lugar mais familiar que me encontrei desde que cheguei. É aqui que quero ficar, que pertence o meu eu.
Ver essa menina, depois de treze anos, tão perto de mim, olhando dentro do meu olho, tentando decifrar as chagas que carreguei e que carrego..., trabalhou com tantos sentimentos quanto os possíveis e existentes. E essa menina que conhecia todos os meus segredos quis saber da minha vida em que ela esteve ausente, mas não tive como - e nem sabia por onde - começar.
O "até logo" me trouxe uma dor enorme na alma. O último "até logo" durara tanto tempo para se consolidar... Quem sabe, da próxima vez que eu vier, seja para ficar e não mais largar o que sei que é nada além que minha identidade, minha felicidade, o meu ser no lugar certo.
(27/dez/2010)

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Certamente têm nuvens que, caso eu decidisse deixar amparar meu corpo, me fariam quicar e voltar, assim como criança pulando em cama elástica, ou eu, apreciando a cama dela. Há uma magia rupestre nas coisas que nos incitam a analisar a vida sob a visão de crianças despreocupadas.
A janela tem resquícios do que se passou de madrugada em meio a tantas turbulências e falta de sono. Pontos de congelamento simulando o desenho de um grande floco de neve. Por trás, várias aglomerações urbanas distribuídas no meio daquela imensidão verde da campanha. A França, que me esperou por tanto tempo voltar, já me tem. Se ela está feliz com isso ou não, decide-se em outro momento.
E nado novamente por entre os flocos de algodão doce, tão brancos quanto as nuvens dos meus sonhos.
(02/dez/2010)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Soneto Fúnebre

Realizei, finalmente, meu cemitério
Lugar onde enterrei este lúcido corpo
De onde não saíra mais nenhum outro morto
Leito gloriosamente frio e solitário.

Dessa solidão, deposito em meu arredor
Tantas dores, lágrimas e, ainda, confusões.
Aqui, deitei para findar certas ações
E fingir que nunca matei meu único amor.

Realizei meu cemitério, finalmente!
Basta procurar a palidez com veias
No deserto onde a neve é tecida em teias!

Tornei-me feia aos teus olhos, creio tristemente...
Perdi a vida, coagulou o sangue, terminou o ar...
Agora que estou morta, vens me visitar?

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O meu primeiro dia 23 do ano.

O sol beijava o mar carinhosamente, depositando diamantes sobre a superfície verde-azulada. Minha íris se confundiu com o límpido movimento daquelas águas que engoliam serenamente a riqueza da cidade das máscaras.
Veneza presenciou o canto das gôndolas sob a calidez do dia sem nuvens. O horizonte mesclava matizes de azul enquanto depositava, eu, meus sonhos ao pé das estacas que seguram esta estrutura divina... e o vento gélido, mais uma vez, zombou do meu sorriso para o infinito bem-estar de uma possível primavera invernal.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

De Porto Alegre ao Rio de Janeiro... (o primeiro avião)

Que sensação gostosa essa de sentir o avião subindo em direção ao infinito. Não tem morfina que bata o gozo da inércia. É uma vertigem que lambe e mordisca as canelas em direção ao ventre, que prende os braços em uma estrutura invisível e banha a cabeça com sonhos prazerosos. A janelinha mostra o distanciamento escalar do paupável para o meio do nada. As nuvens embebedam minha constante dor de cabeça, e, por um instante me consomem todos os poros do corpo por um sentimento de liberdade, tesão, satisfação; como se eu merecesse sentir tudo aquilo. Morreu, pelo tempo da decolagem, minha depressão. É vergonhoso dizer que não senti vontade alguma de pensar no que eu estava deixando em solo?
O serviço de bordo apareceu e, com ele, o desejo de compartilhar tudo. Estranhamente, misturado ao forte cheiro dos amendoins, senti o perfume dela. Doce, suave, me acalmando da calma que eu já sentia.
O sol apareceu no meio disso tudo, de repente, me roubando a atenção. Olha: vida! Um dia, meus amores, vocês estarão fazendo este mesmo trajeto, mas estaremos os três juntos, de mãos dadas, rindo em um orgasmo intenso que nos traz a felicidade.
Em tua homenagem, linda, pedi um café. Não tenho nada mais poético a dizer do que: apertou meu coração, senti tua falta. Só pelo cheiro desse vício que me proporcionaste. O gosto... nunca vai ser melhor que o teu. A cada gole, eu sorvia tua pele, teus lábios, teus olhos. As nuvens escondiam lá no fim do céu a pureza da tua alma, a maciez pálida das tuas curvas, a imensidão da nossa existência.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Fim dos dias

A cidade tem segredos em cada canto visível ou escondido. Cada rosto esconde as dores que não nos orgulhamos de proferir à qualquer desconhecido.Eu me tornei parte dos rostos que fingem sorrisos agradáveis em meio a este ambiente friamente aconchegante.
Os telhados de ardósia, tão peculiares em sua fragilidade, seguram o céu que cai grosso em cima deles; ao mesmo tempo, escondem os vícios do cigarro, abandonados ainda acesos no caminho infinito do contato morto de nossos pés...
O céu me engole, cinza. O concreto come os meus pés, meus olhos, minha consciência. Assim seguem os dias: deformando meu ser/estar, afundada em doentios pensamentos e a conhecimentos que ninguém entenderá da mesma maneira que eu compreendo... Cadê o sol?