terça-feira, 15 de maio de 2012

Éramos seis (anos)


Ao cruzar aquela porta, deparei-me com o mundo que tanto quis fazer parte. Reconheci, naquele apartamento, a vida que eu quero, ainda, construir para mim. Apaixonei-me por uma estante que percorria toda a parede principal da sala-de-estar, recheada de livros. Livros! Coloridos, velhos, novos, com cheiro de sabedoria, aguardando olhos sedentos. Livros de regras gramaticais, de literatura, de coleção; Goethe e Fausto, Cervantes e Dom Quixote, Machado de Assis e Dom Casmurro, Érico Veríssimo com seu Tempo e seu Vento: todos olhando para mim, questionando a minha história, diferente da que cada um deles porta.
Nas paredes brancas, negras letras formando frases e personalidades. Ella Fitzgerald canta - muda e emoldurada - para os outros quadrinhos de casais apaixonados - em poses congeladas e dançantes. Cálices de vinho com rastros da noite anterior, pérolas de brincos no chão, bitucas de cigarro no cinzeiro: a liberdade (in)feliz de uma vida sem restrições.

E junto com aquele tão conhecido perfume, veio o enlace dos braços dele pela minha cintura, e o beijo, e a língua, e o sexo, e o suor, e, finalmente, novos cigarros. Uma velha lembrança completamente nova.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cigana

Nestas beiras de vinte e um anos, a vida me fez engolir as máximas que, para os outros, ela lentamente ensina. As cicatrizes vão além de marcas que enfeitam a pele, são gravações em retinas oculares que desenvolvem uma valsa graciosa entre os diversos corpos, as diversas mãos, a união e o compartilhamento de sonhos, copos, suores, prazeres.
Me descobri fumaça, assim, tão nova. Antes eu era fogo e lambia em labaredas as desenvoltas linhas que teu corpo tatuado e cru se apresentou como lar. A presença, em cinzas, deixou marcada a testa de tantos outros. Me descobri fumaça e já não posso querer virar matéria. É assim que me tornei: leve, fácil, sem deixar rastros, cigana.

Eu quero um vento para levantar a saia da mulata; eu quero um samba para que não desanime o ritmo da festança. A vida funciona para quem quer viver. Eu? Eu sou fumaça na vida de tantos, na vida de muitos, na vida de todos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

As únicas flores

Onde está o homem que preencheu madrugadas de julho por quais minha vida acompanhou, mesmo em distância? As músicas e gargalhadas que apenas o silêncio lembra estão escondidas por alguma gaveta.
As pétalas de rosas que me deste murcharam, embora continuem vivas, vermelhas e recheadas de surpresas nas páginas do caderno que emprestamos, unidos, nossa caligrafia para melhor explicar a sucessão dos banhos de chuva em madrugadas frias ou de carinhos em noites não dormidas.

Procuro por um homem em especial, toda noite, na minha cama. Sumiram os olhos pardos e os lábios tão bem desenhados - os quais esperei por toda a vida.
Se fui abandonada? Se afirmo, logo, que minhas inseguranças me aproximaram de meus medos, já consegues imaginar o que veio a se passar com o mundo ao meu redor...
Eu disse adeus àquele que me recolheu do lixo.

sábado, 24 de março de 2012

"Vai embora e os momentos bons se foram"

Aguardo ansiosamente as nuvens carregadas e escuras. Achei que o sol era bom e que o sal da praia na minha pele iria me fazer sorrir com mais intensidade. Ousei crer que o caramelo lambuzado nos lábios cor de amora me trariam uma descoberta doce, única e desejosa de reiterações. Agora, nem mais a nicotina exclui esse enjôo de minha boca...
Dessa rejeição, só sobraram os meus eternos olhos vazados, banhados em sangue, trazidos pelas repetidas lágrimas em meio à minha pele ressecada pelo verão. Volto, portanto, à timidez incomparável das queimaduras dos flocos de neve que me banham o corpo: beijos delicados e efêmeros, como tudo é e sempre foi.
Das dores, carrego apenas a força de suportar indiferenças. Nunca nada fez sentido e não vejo motivo para descobrir tal ponto de interrogação; só, dessa forma, posso perseguir a rotina e continuar na inércia do que tantos apelidam, com alegria inexplicável, de "vida".

quinta-feira, 1 de março de 2012

Demônio da Perversidade


"E porque nossa razão nos desvia violentamente da borda do precipício, POR ISSO MESMO com mais ímpeto nos aproximamos dela." - Poe
A vida do homem, para que, inexplicavelmente, possa se considerar racional, necessita da negação do que lhe serve o instinto. Agir conforme a natureza é tentação; até onde esta "tentação" do desejo, do 'não', pode influir na seqüência de descobertas positivas para um indivíduo?

Deitada na cama dele, hipnotizada pelos olhos verdes que me cederam sorrisos, me apercebi inteiramente entregue ao que Poe designou ser um "demônio da perversidade". Não tive medo, entretanto, e aceitei permanecer naqueles olhos assim, como ele permanecia nos meus.
Deus escreve torto por linhas retas, finalmente. Enquanto meu instinto me aproximou de dores incontestáveis, a tentação me colocou ao caminho do acaso, loucamente distante de tudo o que eu já ousei conferir. Meu sono, portanto, foi tranqüilo. Dormi presenciando inquietação: que me punam os anjos por ter bem me divertido.