domingo, 19 de novembro de 2017

Sonhos

   O problema de quem está acordado é dormir. Definitivamente, os sonhos maltratam a rotina dos que querem seguir em frente. Seguir em frente é opção, mas concretizar é tão difícil quanto acordar.
   Todas essas mudanças, tantos sorrisos, tanta facilidade de respirar novamente para, de repente, um sonho que te puxa de volta para uma lama imensa e inexplicável. Os erros que cometi. Os erros que cometeste. E se tudo tivesse sido diferente? E se tudo ainda fosse?
   A dor é dos que ficam. A dor é dos que perdem. E eu sinto dor. Ainda. Mesmo não querendo. Mesmo fugindo.
   Todas as marias-fumaças desenhadas em minha pele. Todos os trilhos que reencontraram a Pequena Ladra e o mistério que ninguém sabe, nem eu, e que nunca foi escrito. Nunca mais escrito. A Maldição que volta. E que não termina.
   A dor é dos que sonham.



[https://www.youtube.com/watch?v=ZoQO7e2THIw]

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Plenitude

   Pela primeira vez em anos eu estou me sentindo plena. Sim, foi um erro crasso se alguma outra vez nessa vida ousei crer que me afundava em plenitude. Estou plena e essa imensidão de ondas de felicidade rebentam em meu peito de uma forma tão incrível que meu corpo inteiro dói de tanto sorrir e eu quero sorrir a vida inteira!
   Danilo apareceu na minha vida muitos anos atrás e foi embora. Depois voltou e foi embora de novo. Depois voltou mais uma vez e cuidou de mim como ninguém fez, como nem eu mesma fui capaz de cuidar. Danilo apareceu a primeira vez para me ensinar como me apaixonar por alguém para o resto da vida, incondicionalmente. Apareceu a segunda para me dar certeza que meus sonhos com alguém poderiam ser sonhados. Apareceu a terceira vez para ficar, fazendo eu me arrepender amargamente de tudo o que eu vivi até hoje, reacendendo sonhos que eu extingui com o tempo.
   Poderíamos ter ousado ficar juntos em outras épocas, mas a falta de maturidade cobra caro e hoje, talvez, tudo fosse diferente. Hoje, eu te aceito como meu legítimo esposo e vou te aceitar e te querer para sempre, para dividir contigo essa plenitude nos encharcando ainda com tanto gosto, tanto amor, tanta imensidão! Hoje, o verde do mar se une ao azul do céu e nossos olhos dançam felizes um dentro do outro. As noites mal dormidas se libertaram de todas as cicatrizes e, finalmente, adormecemos felizes, de mãos dadas. O meu rosto em teu peito irradiando o sorriso que tu desenhou em mim.


segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Til it happens to you

   Daqui dois dias serão onze anos. Onze anos da tentativa frustrada de não rememorar diariamente a madrugada de 1º de outubro de 2006 e outras cenas. Dos poucos minutos que pareceram durar tantas horas. Das dores nas costas e nas coxas da força que fiz para afastar o que eu não consegui. Dos gritos que o eco engoliu. O "não" pintado eternamente no sangue seco do rejunte do banheiro.
Tudo o que eu sempre tive medo aconteceu. Tudo o que eu ainda tenho medo continua acontecendo repetidamente em imagens nítidas e escuras em minha cabeça.
   Francamente, ainda não caiu a ficha. Não entendo. Talvez nunca vá. Às vezes parece que tudo não passou de uma mentira, um sonho ruim de muitas noites atrás... E eu nunca consegui não me culpar. "Ela pediu por isso", eles disseram. Mas será que eu pedi mesmo? "Não há nada o que fazer", disse o policial, "era teu afeto". Namorados dão apenas amor às suas meninas, não é? Então talvez seja culpa minha... talvez eu ainda sofra, onze anos depois, porque o pecado é meu e revivê-lo eternamente é a pena correta na Terra. Será mesmo que a culpa é minha?
   E se eu não tivesse ido para aquele lugar aquela noite? E se eu não tivesse conversado com ele uns dias depois? E se eu não tivesse sido tão fraca? E se... alguém tivesse escutado eu pedindo para parar?
   Por que eu?



terça-feira, 24 de outubro de 2017

ETIM lat.medv. capitulare 'fazer um pacto'

   Nada nos mantém tão rígidos, em pé, quanto o ódio. O ódio moveu cada onda quebrada do mar dos meus olhos até que, enfim, em mais uma ressaca, Capitu transforma a rigidez em uma simbólica indiferença distante. As risadas que não se ouvem mais, o som que abafou, o copo que quebrou, os sonhos que deixaram de existir. A vida continuou, Bentinho... Talvez os "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" não tenham influenciado as danças secretas que a fumaça do cigarro não faz mais. Mas aqui jaz a ruptura.
   Capitulo e renuncio.

"- É pecado sonhar?
- Não, Capitu. Nunca foi.
- Então por que essa divindade nos dá golpes tão fortes de realidade e parte nossos sonhos?
- Divindade não destrói sonhos, Capitu. Somos nós que ficamos esperando, ao invés de fazer acontecer."
("Dom Casmurro" - Machado de Assis)

   Aquelas dores de insônia não existirão mais, contudo estas a ti serão entregues diretamente pelos fantasmas dos sonhos. As pétalas murchas recriar-se-ão novas a cada voo impossível do pássaro metálico pelos ares congelados do teu inferno recheado de pessoas suadas nos lençóis que nunca mais serão limpos. Mais do mesmo. Eternamente.

   As lagartixas que se escondem pelos buracos da casa são só minhas agora e descem pela minha coxa direita em tinta e movimento até a podridão irrestrita de minha carne. Respirar fundo no âmago da liberdade de algo que nunca mais irá acontecer. Livre! Pela última vez, the hiss of the train.


terça-feira, 17 de outubro de 2017

Boa noite, Alice.

   Se agora não foi a hora de me curar, quando seria? Quantas pílulas deverei engolir ainda, todos os dias, para ter a sensação de que não permaneço em pedaços? Sempre um comprimido a mais... Uma luta diária para não tropeçar a lâmina da faca em mais uma cicatriz pelo corpo.
   Parece que muita coisa ficou para trás, que deixei escorrer muita história entre meus dedos. Alice cai eternamente pelo buraco e quando finalmente se depara com as portas, nenhuma delas é a certa. Nenhuma porta é do tamanho certo ou contém o mundo certo por trás. Quando Chapeuzinho Vermelho resolve pegar o atalho para a casa da vovozinha, ela sabia que se depararia com o lobo... mas e se ela não tivesse escolhido aquele trajeto, que outro lobo ela teria encontrado?
   Tudo acontece da maneira errada, mas sempre há quem salve... Será que isso é verdadeiro no mundo real? Alguém ainda pode me salvar? E se o meu herói for essa cápsula recheada de algo que mudará misteriosamente o meu humor? Será que para eu ser salva eu devo correr para longe de quem eu sou? Será mesmo que eu sou esse amontoado de ossos e lágrimas e insignificância?
   Depois que uma boneca de Dresden quebra, como consertar? Como esconder estas rachaduras tão toscas que acompanham minha retina, meu sorriso, meu rosto engolido por olheiras?
   E já que devo tomar estes remédios, por que não tomar alguns a mais e dormir o sono que eu tanto busco? Ser finalmente Alice e pular pelo buraco tão fundo...


sábado, 14 de outubro de 2017

Fique à vontade meu bem...

Fique à vontade, meu bem! Sinta vontade de ficar.
Não tenha pressa. Quem sabe aqui é o seu lugar?!
Mas, se tiver de ida, Vê se não vai assim sem mim, Deixa a dor pra depois...
Vamos nos aventurar nesse nosso tempo Após prantos sem chorar...

Fique à vontade, meu bem! Sinta vontade de ficar.
Não tenha pressa, Quem sabe aqui é o seu lugar?!
Me mostra tua coragem:

Vai, leve tudo de mim!
Apague os passos da estrada, Tente nem sequer lembrar Daquele nosso tempo, O qual era tão fácil amar...


Diz que quando eu for embora Sempre vai me procurar?!
Não que eu não queira, Sempre eu vou te amar!
E em cada estação, Em que não puder estar, Levo essa saudade Enquanto não posso te levar.
E no fim desse sufoco Espero contar com a sorte, Se ela existe, Que só a morte possa nos separar!


("Sinta vontade de ficar" - Canto dos Malditos na Terra do Nunca)

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Ratos

   Ratos habitam nos trilhos. Todos eles têm nomes. Eu que dou. Philip, Joseph, Adolfo, Juarez, Melita, Jáquisson, etc. Os ratos nunca pegam o trem. Nem são abalados por ele.
   Eu espero o trem vir. Qualquer um. E vou. Cinco minutos a menos ou a mais não fariam diferença. Tudo mudou, menos meu trajeto. Acho que sempre foi esse. Enquanto o trem sacode penso que voltar à estação talvez não seja a melhor opção. Não agora. Não depois de tudo. Eu estive tempo demais esperando o trem que nunca abriu a porta do vagão quando era minha vez. Agora, enquanto a fumaça já não grita pelos ares, o trem percorre com a porta aberta. Não quero mais outra cicatriz. Não essa. Não de novo.
   Deveríamos nos arrepender das coisas que não fizemos... Será que Zuleidecreide e seus amiguinhos ratinhos dos trilhos se arrependem de não pegar o trem ou ficar embaixo dele enquanto ele passa é suficiente?

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Repelente

   Ok. Respirar dói cada vez mais.
   Virar a página é uma forma de cortar os pulsos. Olhar para o lado causa torcicolo. O que estou fazendo comigo? Pour quoi je suis née comme ça?
   Sinto saudade do cheiro do mar, mas quando estou na praia, o odor de areia me enjoa e sinto falta do cheiro de terra; quando estou nos pampas, a terra arde os olhos e sinto falta do concreto; quando estou na nossa cidade, sobressai o odor adocicado de sangue podre. O ontem e o hoje ao mesmo tempo.
   A cabeça rodopia e nada mais faz sentido. Talvez nunca tenha feito. Gira e gira e gira e cai na cama. Não levantar mais. Não levantar mais. Não me obriguem a levantar mais!
   Acabaram as forças. As minhas. Definitivamente. Caí em todas as armadilhas que minha cabeça poderia ter arranjado. A carne sangra, os olhos fixos no horizonte... a porta do quarto fechada. Para sempre fechada. Ninguém mais vai abrir; é mais fácil fingir que eu nunca existi... vai ser assim que todos vão lidar. Nunca vai se tratar de uma saudade de mim, será sempre um desejo de nunca ter sido.
   Obrigada, papai, por me mostrar a inutilidade que sou. Obrigada por me fazer perceber que eu nunca vou ser suficiente para ninguém. É verdade, eu imploro para que todos fiquem, mas todos vão embora. Todos. Todos. Todos fogem. E eu aqui: abraçada nos meus próprios braços, sentindo falta de já não sei mais o quê, agarrada na única companhia que nunca me abandonou, a sombra do meu corpo gordo, torto e inútil. Inútil. Repelente.


quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bom dia, Alice!

   Bom dia, xícara de café fumegante! Hoje, talvez, seja um dia melhor, sabe? *pléft* (Caiu da minha mão o açucareiro e se espatifou no chão). Éhm... bem, talvez não...
   Limpar açúcar é uma meleca. Respirar também: meleca de nariz. Morrer inclusive: meleca por todos os buracos.

   O telefone que não toca? Foi uma escolha minha, mas saiba que eu sempre olho todos os postes. Aliás, aqueles sonhos abaixo do sereno estão guardados e não descartados. Nunca serão descartados.

   Não há mais metáforas para Alice. Os espelhos, assim como os encantos, se quebraram e ouvi dizer que isso significa sete anos de azar. Se azar denota ver aquele breve raio de esperança, então quero quebrar espelhos a vida toda.
   Respirar dói, lembrar dói; a mão sangra, a perna também... Mas eu ainda sou tudo isso que os vampiros de mentirinha conhecem, por trás da história inventada. Família é importante, mas não vai nos erguer: a força vem das nossas pernas definhadas, secas, gravetos, do âmago murcho e do coração que, inexplicavelmente, não desiste nunca de se contorcer em sístoles e diástoles.



   Talvez tudo seja bem mais simples do que eu romantize, mas essa merda de ponte razão-emoção faz não ser. Por mais perdida que eu esteja, mais no meu mundinho de Alice eu me encontro.
   Florbela uma vez disse: "um engano feliz nos vale bem mais / que um desengano que nos custa tanto."

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Espera

   Salto alto, roupa elegante, cabelo penteado, maquiagem impecável. Na ante-sala, espero a vida passar. Em frente ao espelho também. Não estou ficando mais jovem, nem mais magra, nem mais decente.
   Cada vez que deito a cabeça no travesseiro, relembro daquele mês que não consegui mais levantar, de como tudo era pesado e eu não sabia o porquê de tudo parecer tão disforme. Daqui uma semana, eu não tomarei mais remédios, embora eu acredite que ainda não é hora, que ainda estou na ante-sala e parar é ir embora. Ir embora nunca é bom. É uma quebra, uma queda, um fim de algo que ainda deve acontecer. Por que não esperar acontecer? Esperar até quando? O que esperar mesmo?
   


(Se eu não conseguir mais respirar, não esquece que eu tentei ficar de olhos abertos o máximo que pude.)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Específico

   Um segundo antes e um segundo depois.



   O momento de prender a respiração, fechar os olhos e explodir um canhão na água da piscina. O momento de se desprender das amarras, soltar o ar, abrir os olhos e relaxar os músculos na ânsia de buscar mais ar.
   E tudo mudou... As escolhas, a liberdade, os propósitos.
  Mas tem aquela pequena coisa que grita em mim: teus olhos brilhando refletindo as lâmpadas do bar nas noites escuras e frias, dos rodopios que a cabeça dá graças às várias cervejas geladas que escorreram (escorrem?) pela garganta quente. Lembra daquele sorriso tímido? O espelho ainda vê todos.
   O segundo exato que o corpo seco rompe as ondas inexistentes da água... O momento específico onde tudo fazia sentido e a água me engole. O ponto que a imaginação se esfacela com o trem que desliza grosseiro sobre os trilhos.

   Aquele momento exato que o Sol me mostrou a matiz esverdeada de teus olhos.



Show me love,
Or find the door.
Fire your cannonballs.
Waste faith where there never was,
A prayer.
[https://www.youtube.com/watch?v=kSx0eIM4J0Y&list=PLpH8IyrBLY8WbbGptS6RxiZ7y6495DyDK&index=1]

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Learn to be still

It's just another day in paradise
As you stumble to your bed
You'd give anything to silence
Those voices ringing in your head
You thought you could find happiness
Just over that green hill
You thouth you would be satisfied
But you never will
(Learn to be still)

We are like sheep whitout a shepherd
We don't know how to be alone
So we wander around this desert
And wind up following the wrong gods home
But the flock cries out for another
And they keep answering that bell
And one more starry-eyed messiah
Meets a violent farewell
(Learn to be still)

Now the flowers in your garden
They don't smell so sweet
Maybe you've forgotten
The heaven lying at your feet...

There are so many contridictions
In all these messages we send
(We keep asking)
How do I get out of here?
Where do I fit in?
Though the world is torn and shaken
Even if your heart is breaking
It's waiting for you to awaken
And someday you will
(Learn to be still)

You just keep on runnin'
Keep on runnin'


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Big little lies

   Milhares de mensagens motivacionais... Como se tua vida fosse realmente um mar de ondas positivas. Tu realmente acreditas nas bobagens que tu escreves? Que um passo de cada vez te levará ao sucesso? Tens orgulho de quem tu és, das tuas mentiras, tuas cicatrizes? Alguém realmente te leva a sério?
   Nada é tão maravilhoso como nos filmes, nas músicas e nos sonhos. Nada nunca foi. Quem esteve no mar só agradece quando descobre que é saindo dele que se pode respirar... e eu, satisfeitíssima, segui teus dizeres de como nadar até a orla da praia e desfrutar de coisas que existem de verdade.
   Não importa o tamanho da onda que me baba o pé, nunca mais estarei nesse mar! :)


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Augusta

   Andávamos enquanto desviávamos da sujeira da rua, das pessoas estranhas (acompanhadas, mas tão tão sozinhas). Ouvimos os sons das gargalhadas dos bêbados e drogados, bem como presenciamos o silêncio dos que ainda não foram e que ainda esperam. Caminhamos no nosso ritmo e eu vi um bar a céu aberto de pessoas que não sabem mais a que mundo pertencem. Dançamos e rimos por aquela rua tão famosa a alegria que nenhum ébrio seria capaz de entender. 
   Alguém uma vez disse que "os bares estão cheios de almas tão vazias". Entendi.
   Adentrei na Avenida sem saber que pisava nela. Gostei do que vi ao mesmo tempo que não gostei do que vi; amei estar ali. E tinha que ser com ele!
   Concordamos sentir saudade dos tempos em que a rua se dividia em tribos e que, mesmo não estando presente, eu estava contigo, de moicano colorido e pregos pelo rosto. Algumas coisas mudaram, mas não o barulho dos nossos coturnos no asfalto. Nós continuamos sendo quem fomos e a cada quadra eu te amo cada vez mais.


domingo, 28 de maio de 2017

Assovio

   De todos os meus pesadelos, este ainda é o pior. Quando acordo, todo o catarro da memória preso no teto da minha íris. Meu espelho cada vez mais quebrado mal consegue identificar meus traços. A minha silhueta já não é a que eu queria. Cada estaca do tempo afundando mais e mais rudemente minha pele já não tão macia. Olheiras fundas. Mãos envelhecidas. Irreconhecível.
   Respirar cansa.
  E esse maldito pesadelo... Entre dormir e acordar, o cansaço eterno. Nenhuma diferença. Nenhuma mudança à vista. O esôfago continua queimando uma dor invisível. Única. Os olhos ardidos das lágrimas salgadas e a pele riscada. A pele embaixo das unhas que riscaram a pele. Tudo perdeu o sentido.
   Falta ar.
   A máquina à vapor saindo de dentro do quadro, atropelando o casal sob o guarda-chuva vermelho. A fumaça. Os trens. "Always the summers are slipping away". Sofrer por escolhas que não tomei.

   Simplesmente.
   Interromper. 


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Nossa dança

   Se todas as danças dançassem o nosso beijo, qualquer ritmo sambaria no nosso rocka. O cigarro, que hoje já não existe, rodopiava das minhas mãos para as tuas e das tuas para as minhas. A fumaça, tão hipnotizante, rodava piruetas alegres pelo ar. E a gente dançava a nossa música e a nossa música era só nossa. Só nós escutávamos ela e mais ninguém, porque era nossa dança e sempre vai ser.
   Os teus olhos sorriem no teu sorriso e esse é o meu sonho mais lindo. As tuas mãos seguram as minhas e todos os trilhos de trem trilham a mesma direção. Não há necessidade mais de guardar saudades já que tu és meu e será sempre. Todos os encontros nas matizes dos nossos olhos.


[Muito obrigada por deixar eu te amar.]

   Se for para ser algo, que sejam todas as danças dançadas pelo nosso beijo. Que todos os ritmos sambem no nosso rocka.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Eu.

   Se as coisas fossem tão simples quanto tomar um banho para retirar a sujeira do corpo, eu não estaria aqui, chorando minha impotência de ser como sou. Cada gota que pinga e escorre traz à flor da pele todas as existências que eu não quis.
    É irritantemente repetitivo e desgastante a vontade de abrir os olhos. Esse eterno sentir machucado. Têm vezes que respirar dói e que levantar da cama torna-se impossível. Minha pele esculpe cicatrizes todas as vezes que minha cabeça sufoca. Pensar dói. Relembrar arde. Sangra. Impotência.
   Sentir é relativo, dizem. Cada um sente a dor de alguma forma e lida com ela assim. As pessoas dizem que sou forte. Eu me sinto fraca. Acho que ninguém entende... Ninguém nunca vai entender.
   Todas as noites os olhos fecham e aquele velho filme de horrores transpassa pela minha retina. O grito sufoca. Jamais vão curar. As cicatrizes. Jamais vão. Até quando?



   Por que eu tenho que viver essa vida?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Remo

   Às vezes sinto-me burra. Mas não burra no sentido de.
  Meu pai costumava me dizer: "Existe o conhecimento. Parte do conhecimento está nos livros. Parte do conhecimento dos livros é absorvido pelos professores. Parte do que é absorvido pelos professores é passado aos alunos. Parte do que é passado aos alunos, estes realmente fixam". Com isso, aprendi a mastigar todos os dias um pouco de sentimento de impotência, de fraqueza e a certeza de que eu nunca seria boa o suficiente em alguma coisa. O dia que eu confirmei esse sentimento foi quando fui a uma biblioteca: sentei-me em frente às estantes de literatura francesa e deparei-me que tantos e tantos livros... e a vida é tão curta! Jamais teria eu tempo para ler tudo aquilo. Para absorver a parte da parte da parte do conhecimento...
   Acho que a vida é mais ou menos isso: uma insegurança por nunca saber nada. Pensamos sempre estarmos agindo da melhor maneira e nunca é. Nunca é suficiente. Nunca vai ser. Nunca será satisfatório para nós, nem aos outros. Nunca! Aquela sensação eterna de ressaca - eu tinha certeza que beber aquelas coisas todas me deixaria feliz, mas.
   Às vezes sinto-me burra. Parece que nunca vou deixar de ser. Parece que quanto mais se rema, mais impossível é andar uma casa à frente. Sempre há uma onda que surge e nos derruba duas casas para trás. Quantas ondas são necessárias para que tudo pare? Para desistir? Para que se perceba que nunca. Nunca! Quanto tempo ainda?


quinta-feira, 30 de março de 2017

Grilhões

   Nesse exato momento, alguém está sofrendo algum tipo de abuso. Se tu fechar os olhos e se concentrar, consegue ouvir o estalo do tapa no rosto, o xingamento agressivo, o grito de "não". Nesse exato momento, a situação de abuso já passou... E recomeça. Com tantas outras pessoas.
   O que é segurança? Tu te sentes seguro? Todos os dias antes de sair de casa, alguém leva um pouco de ti; todos os dias, enquanto tu sai, alguém fica, alguém não volta. Final do dia, cansado, tu retornas para tua casa, deita em tua cama fofinha e pensa "amanhã vai ser tudo igual"... Rotina também é tortura. Não saber quem se é também é sofrimento. Desejar uma fuga para poder respirar também é desespero.
   Os pedidos de ajuda estão em todos os lugares. Só percebe quem também sente, Só ajuda quem estava no lugar certo...
   E desse medo insuperável de perdermos nossas liberdades, o que devemos fazer com ele? O que dói tanto em ti que te sufoca? Qual é a última faísca que faz tu não desistir, todos os dias, de todos os abusos que tu te submetes?

   Silêncio também é agressão.