quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Bom dia, Alice!

   Bom dia, xícara de café fumegante! Hoje, talvez, seja um dia melhor, sabe? *pléft* (Caiu da minha mão o açucareiro e se espatifou no chão). Éhm... bem, talvez não...
   Limpar açúcar é uma meleca. Respirar também: meleca de nariz. Morrer inclusive: meleca por todos os buracos.

   O telefone que não toca? Foi uma escolha minha, mas saiba que eu sempre olho todos os postes. Aliás, aqueles sonhos abaixo do sereno estão guardados e não descartados. Nunca serão descartados.

   Não há mais metáforas para Alice. Os espelhos, assim como os encantos, se quebraram e ouvi dizer que isso significa sete anos de azar. Se azar denota ver aquele breve raio de esperança, então quero quebrar espelhos a vida toda.
   Respirar dói, lembrar dói; a mão sangra, a perna também... Mas eu ainda sou tudo isso que os vampiros de mentirinha conhecem, por trás da história inventada. Família é importante, mas não vai nos erguer: a força vem das nossas pernas definhadas, secas, gravetos, do âmago murcho e do coração que, inexplicavelmente, não desiste nunca de se contorcer em sístoles e diástoles.



   Talvez tudo seja bem mais simples do que eu romantize, mas essa merda de ponte razão-emoção faz não ser. Por mais perdida que eu esteja, mais no meu mundinho de Alice eu me encontro.
   Florbela uma vez disse: "um engano feliz nos vale bem mais / que um desengano que nos custa tanto."

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Espera

   Salto alto, roupa elegante, cabelo penteado, maquiagem impecável. Na ante-sala, espero a vida passar. Em frente ao espelho também. Não estou ficando mais jovem, nem mais magra, nem mais decente.
   Cada vez que deito a cabeça no travesseiro, relembro daquele mês que não consegui mais levantar, de como tudo era pesado e eu não sabia o porquê de tudo parecer tão disforme. Daqui uma semana, eu não tomarei mais remédios, embora eu acredite que ainda não é hora, que ainda estou na ante-sala e parar é ir embora. Ir embora nunca é bom. É uma quebra, uma queda, um fim de algo que ainda deve acontecer. Por que não esperar acontecer? Esperar até quando? O que esperar mesmo?
   


(Se eu não conseguir mais respirar, não esquece que eu tentei ficar de olhos abertos o máximo que pude.)

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Específico

   Um segundo antes e um segundo depois.



   O momento de prender a respiração, fechar os olhos e explodir um canhão na água da piscina. O momento de se desprender das amarras, soltar o ar, abrir os olhos e relaxar os músculos na ânsia de buscar mais ar.
   E tudo mudou... As escolhas, a liberdade, os propósitos.
  Mas tem aquela pequena coisa que grita em mim: teus olhos brilhando refletindo as lâmpadas do bar nas noites escuras e frias, dos rodopios que a cabeça dá graças às várias cervejas geladas que escorreram (escorrem?) pela garganta quente. Lembra daquele sorriso tímido? O espelho ainda vê todos.
   O segundo exato que o corpo seco rompe as ondas inexistentes da água... O momento específico onde tudo fazia sentido e a água me engole. O ponto que a imaginação se esfacela com o trem que desliza grosseiro sobre os trilhos.

   Aquele momento exato que o Sol me mostrou a matiz esverdeada de teus olhos.



Show me love,
Or find the door.
Fire your cannonballs.
Waste faith where there never was,
A prayer.
[https://www.youtube.com/watch?v=kSx0eIM4J0Y&list=PLpH8IyrBLY8WbbGptS6RxiZ7y6495DyDK&index=1]

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Learn to be still

It's just another day in paradise
As you stumble to your bed
You'd give anything to silence
Those voices ringing in your head
You thought you could find happiness
Just over that green hill
You thouth you would be satisfied
But you never will
(Learn to be still)

We are like sheep whitout a shepherd
We don't know how to be alone
So we wander around this desert
And wind up following the wrong gods home
But the flock cries out for another
And they keep answering that bell
And one more starry-eyed messiah
Meets a violent farewell
(Learn to be still)

Now the flowers in your garden
They don't smell so sweet
Maybe you've forgotten
The heaven lying at your feet...

There are so many contridictions
In all these messages we send
(We keep asking)
How do I get out of here?
Where do I fit in?
Though the world is torn and shaken
Even if your heart is breaking
It's waiting for you to awaken
And someday you will
(Learn to be still)

You just keep on runnin'
Keep on runnin'


sexta-feira, 30 de junho de 2017

Big little lies

   Milhares de mensagens motivacionais... Como se tua vida fosse realmente um mar de ondas positivas. Tu realmente acreditas nas bobagens que tu escreves? Que um passo de cada vez te levará ao sucesso? Tens orgulho de quem tu és, das tuas mentiras, tuas cicatrizes? Alguém realmente te leva a sério?
   Nada é tão maravilhoso como nos filmes, nas músicas e nos sonhos. Nada nunca foi. Quem esteve no mar só agradece quando descobre que é saindo dele que se pode respirar... e eu, satisfeitíssima, segui teus dizeres de como nadar até a orla da praia e desfrutar de coisas que existem de verdade.
   Não importa o tamanho da onda que me baba o pé, nunca mais estarei nesse mar! :)


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Augusta

   Andávamos enquanto desviávamos da sujeira da rua, das pessoas estranhas (acompanhadas, mas tão tão sozinhas). Ouvimos os sons das gargalhadas dos bêbados e drogados, bem como presenciamos o silêncio dos que ainda não foram e que ainda esperam. Caminhamos no nosso ritmo e eu vi um bar a céu aberto de pessoas que não sabem mais a que mundo pertencem. Dançamos e rimos por aquela rua tão famosa a alegria que nenhum ébrio seria capaz de entender. 
   Alguém uma vez disse que "os bares estão cheios de almas tão vazias". Entendi.
   Adentrei na Avenida sem saber que pisava nela. Gostei do que vi ao mesmo tempo que não gostei do que vi; amei estar ali. E tinha que ser com ele!
   Concordamos sentir saudade dos tempos em que a rua se dividia em tribos e que, mesmo não estando presente, eu estava contigo, de moicano colorido e pregos pelo rosto. Algumas coisas mudaram, mas não o barulho dos nossos coturnos no asfalto. Nós continuamos sendo quem fomos e a cada quadra eu te amo cada vez mais.


domingo, 28 de maio de 2017

Assovio

   De todos os meus pesadelos, este ainda é o pior. Quando acordo, todo o catarro da memória preso no teto da minha íris. Meu espelho cada vez mais quebrado mal consegue identificar meus traços. A minha silhueta já não é a que eu queria. Cada estaca do tempo afundando mais e mais rudemente minha pele já não tão macia. Olheiras fundas. Mãos envelhecidas. Irreconhecível.
   Respirar cansa.
  E esse maldito pesadelo... Entre dormir e acordar, o cansaço eterno. Nenhuma diferença. Nenhuma mudança à vista. O esôfago continua queimando uma dor invisível. Única. Os olhos ardidos das lágrimas salgadas e a pele riscada. A pele embaixo das unhas que riscaram a pele. Tudo perdeu o sentido.
   Falta ar.
   A máquina à vapor saindo de dentro do quadro, atropelando o casal sob o guarda-chuva vermelho. A fumaça. Os trens. "Always the summers are slipping away". Sofrer por escolhas que não tomei.

   Simplesmente.
   Interromper. 


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Nossa dança

   Se todas as danças dançassem o nosso beijo, qualquer ritmo sambaria no nosso rocka. O cigarro, que hoje já não existe, rodopiava das minhas mãos para as tuas e das tuas para as minhas. A fumaça, tão hipnotizante, rodava piruetas alegres pelo ar. E a gente dançava a nossa música e a nossa música era só nossa. Só nós escutávamos ela e mais ninguém, porque era nossa dança e sempre vai ser.
   Os teus olhos sorriem no teu sorriso e esse é o meu sonho mais lindo. As tuas mãos seguram as minhas e todos os trilhos de trem trilham a mesma direção. Não há necessidade mais de guardar saudades já que tu és meu e será sempre. Todos os encontros nas matizes dos nossos olhos.


[Muito obrigada por deixar eu te amar.]

   Se for para ser algo, que sejam todas as danças dançadas pelo nosso beijo. Que todos os ritmos sambem no nosso rocka.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Eu.

   Se as coisas fossem tão simples quanto tomar um banho para retirar a sujeira do corpo, eu não estaria aqui, chorando minha impotência de ser como sou. Cada gota que pinga e escorre traz à flor da pele todas as existências que eu não quis.
    É irritantemente repetitivo e desgastante a vontade de abrir os olhos. Esse eterno sentir machucado. Têm vezes que respirar dói e que levantar da cama torna-se impossível. Minha pele esculpe cicatrizes todas as vezes que minha cabeça sufoca. Pensar dói. Relembrar arde. Sangra. Impotência.
   Sentir é relativo, dizem. Cada um sente a dor de alguma forma e lida com ela assim. As pessoas dizem que sou forte. Eu me sinto fraca. Acho que ninguém entende... Ninguém nunca vai entender.
   Todas as noites os olhos fecham e aquele velho filme de horrores transpassa pela minha retina. O grito sufoca. Jamais vão curar. As cicatrizes. Jamais vão. Até quando?



   Por que eu tenho que viver essa vida?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Remo

   Às vezes sinto-me burra. Mas não burra no sentido de.
  Meu pai costumava me dizer: "Existe o conhecimento. Parte do conhecimento está nos livros. Parte do conhecimento dos livros é absorvido pelos professores. Parte do que é absorvido pelos professores é passado aos alunos. Parte do que é passado aos alunos, estes realmente fixam". Com isso, aprendi a mastigar todos os dias um pouco de sentimento de impotência, de fraqueza e a certeza de que eu nunca seria boa o suficiente em alguma coisa. O dia que eu confirmei esse sentimento foi quando fui a uma biblioteca: sentei-me em frente às estantes de literatura francesa e deparei-me que tantos e tantos livros... e a vida é tão curta! Jamais teria eu tempo para ler tudo aquilo. Para absorver a parte da parte da parte do conhecimento...
   Acho que a vida é mais ou menos isso: uma insegurança por nunca saber nada. Pensamos sempre estarmos agindo da melhor maneira e nunca é. Nunca é suficiente. Nunca vai ser. Nunca será satisfatório para nós, nem aos outros. Nunca! Aquela sensação eterna de ressaca - eu tinha certeza que beber aquelas coisas todas me deixaria feliz, mas.
   Às vezes sinto-me burra. Parece que nunca vou deixar de ser. Parece que quanto mais se rema, mais impossível é andar uma casa à frente. Sempre há uma onda que surge e nos derruba duas casas para trás. Quantas ondas são necessárias para que tudo pare? Para desistir? Para que se perceba que nunca. Nunca! Quanto tempo ainda?


quinta-feira, 30 de março de 2017

Grilhões

   Nesse exato momento, alguém está sofrendo algum tipo de abuso. Se tu fechar os olhos e se concentrar, consegue ouvir o estalo do tapa no rosto, o xingamento agressivo, o grito de "não". Nesse exato momento, a situação de abuso já passou... E recomeça. Com tantas outras pessoas.
   O que é segurança? Tu te sentes seguro? Todos os dias antes de sair de casa, alguém leva um pouco de ti; todos os dias, enquanto tu sai, alguém fica, alguém não volta. Final do dia, cansado, tu retornas para tua casa, deita em tua cama fofinha e pensa "amanhã vai ser tudo igual"... Rotina também é tortura. Não saber quem se é também é sofrimento. Desejar uma fuga para poder respirar também é desespero.
   Os pedidos de ajuda estão em todos os lugares. Só percebe quem também sente, Só ajuda quem estava no lugar certo...
   E desse medo insuperável de perdermos nossas liberdades, o que devemos fazer com ele? O que dói tanto em ti que te sufoca? Qual é a última faísca que faz tu não desistir, todos os dias, de todos os abusos que tu te submetes?

   Silêncio também é agressão.