sexta-feira, 30 de junho de 2017

Big little lies

   Milhares de mensagens motivacionais... Como se tua vida fosse realmente um mar de ondas positivas. Tu realmente acreditas nas bobagens que tu escreves? Que um passo de cada vez te levará ao sucesso? Tens orgulho de quem tu és, das tuas mentiras, tuas cicatrizes? Alguém realmente te leva a sério?
   Nada é tão maravilhoso como nos filmes, nas músicas e nos sonhos. Nada nunca foi. Quem esteve no mar só agradece quando descobre que é saindo dele que se pode respirar... e eu, satisfeitíssima, segui teus dizeres de como nadar até a orla da praia e desfrutar de coisas que existem de verdade.
   Não importa o tamanho da onda que me baba o pé, nunca mais estarei nesse mar! :)


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Augusta

   Andávamos enquanto desviávamos da sujeira da rua, das pessoas estranhas (acompanhadas, mas tão tão sozinhas). Ouvimos os sons das gargalhadas dos bêbados e drogados, bem como presenciamos o silêncio dos que ainda não foram e que ainda esperam. Caminhamos no nosso ritmo e eu vi um bar a céu aberto de pessoas que não sabem mais a que mundo pertencem. Dançamos e rimos por aquela rua tão famosa a alegria que nenhum ébrio seria capaz de entender. 
   Alguém uma vez disse que "os bares estão cheios de almas tão vazias". Entendi.
   Adentrei na Avenida sem saber que pisava nela. Gostei do que vi ao mesmo tempo que não gostei do que vi; amei estar ali. E tinha que ser com ele!
   Concordamos sentir saudade dos tempos em que a rua se dividia em tribos e que, mesmo não estando presente, eu estava contigo, de moicano colorido e pregos pelo rosto. Algumas coisas mudaram, mas não o barulho dos nossos coturnos no asfalto. Nós continuamos sendo quem fomos e a cada quadra eu te amo cada vez mais.


domingo, 28 de maio de 2017

Assovio

   De todos os meus pesadelos, este ainda é o pior. Quando acordo, todo o catarro da memória preso no teto da minha íris. Meu espelho cada vez mais quebrado mal consegue identificar meus traços. A minha silhueta já não é a que eu queria. Cada estaca do tempo afundando mais e mais rudemente minha pele já não tão macia. Olheiras fundas. Mãos envelhecidas. Irreconhecível.
   Respirar cansa.
  E esse maldito pesadelo... Entre dormir e acordar, o cansaço eterno. Nenhuma diferença. Nenhuma mudança à vista. O esôfago continua queimando uma dor invisível. Única. Os olhos ardidos das lágrimas salgadas e a pele riscada. A pele embaixo das unhas que riscaram a pele. Tudo perdeu o sentido.
   Falta ar.
   A máquina à vapor saindo de dentro do quadro, atropelando o casal sob o guarda-chuva vermelho. A fumaça. Os trens. "Always the summers are slipping away". Sofrer por escolhas que não tomei.

   Simplesmente.
   Interromper. 


quarta-feira, 10 de maio de 2017

Nossa dança

   Se todas as danças dançassem o nosso beijo, qualquer ritmo sambaria no nosso rocka. O cigarro, que hoje já não existe, rodopiava das minhas mãos para as tuas e das tuas para as minhas. A fumaça, tão hipnotizante, rodava piruetas alegres pelo ar. E a gente dançava a nossa música e a nossa música era só nossa. Só nós escutávamos ela e mais ninguém, porque era nossa dança e sempre vai ser.
   Os teus olhos sorriem no teu sorriso e esse é o meu sonho mais lindo. As tuas mãos seguram as minhas e todos os trilhos de trem trilham a mesma direção. Não há necessidade mais de guardar saudades já que tu és meu e será sempre. Todos os encontros nas matizes dos nossos olhos.


[Muito obrigada por deixar eu te amar.]

   Se for para ser algo, que sejam todas as danças dançadas pelo nosso beijo. Que todos os ritmos sambem no nosso rocka.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Eu.

   Se as coisas fossem tão simples quanto tomar um banho para retirar a sujeira do corpo, eu não estaria aqui, chorando minha impotência de ser como sou. Cada gota que pinga e escorre traz à flor da pele todas as existências que eu não quis.
    É irritantemente repetitivo e desgastante a vontade de abrir os olhos. Esse eterno sentir machucado. Têm vezes que respirar dói e que levantar da cama torna-se impossível. Minha pele esculpe cicatrizes todas as vezes que minha cabeça sufoca. Pensar dói. Relembrar arde. Sangra. Impotência.
   Sentir é relativo, dizem. Cada um sente a dor de alguma forma e lida com ela assim. As pessoas dizem que sou forte. Eu me sinto fraca. Acho que ninguém entende... Ninguém nunca vai entender.
   Todas as noites os olhos fecham e aquele velho filme de horrores transpassa pela minha retina. O grito sufoca. Jamais vão curar. As cicatrizes. Jamais vão. Até quando?



   Por que eu tenho que viver essa vida?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Remo

   Às vezes sinto-me burra. Mas não burra no sentido de.
  Meu pai costumava me dizer: "Existe o conhecimento. Parte do conhecimento está nos livros. Parte do conhecimento dos livros é absorvido pelos professores. Parte do que é absorvido pelos professores é passado aos alunos. Parte do que é passado aos alunos, estes realmente fixam". Com isso, aprendi a mastigar todos os dias um pouco de sentimento de impotência, de fraqueza e a certeza de que eu nunca seria boa o suficiente em alguma coisa. O dia que eu confirmei esse sentimento foi quando fui a uma biblioteca: sentei-me em frente às estantes de literatura francesa e deparei-me que tantos e tantos livros... e a vida é tão curta! Jamais teria eu tempo para ler tudo aquilo. Para absorver a parte da parte da parte do conhecimento...
   Acho que a vida é mais ou menos isso: uma insegurança por nunca saber nada. Pensamos sempre estarmos agindo da melhor maneira e nunca é. Nunca é suficiente. Nunca vai ser. Nunca será satisfatório para nós, nem aos outros. Nunca! Aquela sensação eterna de ressaca - eu tinha certeza que beber aquelas coisas todas me deixaria feliz, mas.
   Às vezes sinto-me burra. Parece que nunca vou deixar de ser. Parece que quanto mais se rema, mais impossível é andar uma casa à frente. Sempre há uma onda que surge e nos derruba duas casas para trás. Quantas ondas são necessárias para que tudo pare? Para desistir? Para que se perceba que nunca. Nunca! Quanto tempo ainda?


quinta-feira, 30 de março de 2017

Grilhões

   Nesse exato momento, alguém está sofrendo algum tipo de abuso. Se tu fechar os olhos e se concentrar, consegue ouvir o estalo do tapa no rosto, o xingamento agressivo, o grito de "não". Nesse exato momento, a situação de abuso já passou... E recomeça. Com tantas outras pessoas.
   O que é segurança? Tu te sentes seguro? Todos os dias antes de sair de casa, alguém leva um pouco de ti; todos os dias, enquanto tu sai, alguém fica, alguém não volta. Final do dia, cansado, tu retornas para tua casa, deita em tua cama fofinha e pensa "amanhã vai ser tudo igual"... Rotina também é tortura. Não saber quem se é também é sofrimento. Desejar uma fuga para poder respirar também é desespero.
   Os pedidos de ajuda estão em todos os lugares. Só percebe quem também sente, Só ajuda quem estava no lugar certo...
   E desse medo insuperável de perdermos nossas liberdades, o que devemos fazer com ele? O que dói tanto em ti que te sufoca? Qual é a última faísca que faz tu não desistir, todos os dias, de todos os abusos que tu te submetes?

   Silêncio também é agressão.