segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Que venha. Que leve!

O ano não acabou. Ainda não. Poderia ter acabado há muito tempo e não há quem não concorde. Esse ano arrastou-se com um vagar inexplicavelmente lento. Assim sendo, tudo foi absurdamente intenso: as dores demoraram mais para se transformarem em suspiro e, igualmente, as risadas tardaram a se transformar em lágrimas.
2014 foi um eterno SETE GOLS DA ALEMANHA nesses 365 dias e noites (ou quase isso, na verdade, porque o ano ainda não terminou). E, se em algum momento eu disse - e devo ter dito - que eu gostaria que esse ano nunca tivesse se passado, pois bem, eu repetiria a afirmação com veemência se não fosse o fato de eu ter crescido tanto!
Meu pai me disse que, com a vida, ele aprendeu a deixar de se preocupar comigo, que ele tinha muito medo que eu me machucasse, mas que agora ele não tem mais. Ele entendeu que as pessoas só aprendem batendo a cabeça na parede - sangrando e cicatrizando por conta. Foi isso que aconteceu comigo. Eu caí, tropecei, caí de novo, esbarrei o rosto no asfalto, sangrei, curei, arranquei a casca da ferida, ralei, ardi,... E, ~tcharãm~, cá estou, em pé, sorrindo e saltitante!
Está bem. Nem tão saltitante e nem tão risonha, mas estou em pé. Seguramente, mais forte e sem tantas certezas. Mais aberta a algo que vem e que eu não sei o que é. Com objetivos firmes, sabendo do trajeto cheio de bifurcações. Dessa vez, sem medo de errar o caminho. Aprendi que posso voltar um pouco e retomar os passos da forma que eu bem entender. Não é vergonha recomeçar.


Que eu saiba buscar em 2015 o fôlego que eu não aceitei ter neste ano que deixei por me consumir. Que seja lema:
"Para nós, todo o amor do mundo.
Para eles, o outro lado."

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

O mendigo

Hoje, prometi para mim mesma que eu não escreveria mais coisas tristes aqui. Preciso reorganizar os móveis dentro de mim e de nada adianta eu trocar os vasos de flores de lugar se as janelas permanecem fechadas. Decidi que vou me ajudar com tudo o que consigo. Se eu consigo suportar todas as coisas que me corróem nos outros, eu posso conseguir me suportar e me erguer. As pernas são minhas. Sempre foram.
Por essa semana eu fiquei muito pensativa na efemeridade das coisas. (Efemeridade me lembra os mesopotâmios, escrita cuneiforme, etc.). Eu viajo todos os dias. E sempre que o ônibus começa a andar mais ligeiro ou faz uma curva mais fechada, eu respiro fundo, porque eu vejo o acidente acontecendo: o ônibus tombando, batendo, pessoas machucadas, etc. Vejo em um micro surto de pânico e, ainda bem, nunca aconteceu. Fico absurdamente aliviada que nunca tenha acontecido, porque, por mais que eu pense bobagens às vezes, eu quero tanto me ver realizando os planos que a vida me fez confeccionar.
Prometi, então, que não vou escrever mais coisas tristes aqui. Todavia, quero deixar estabelecido que talvez venham a acontecer alguns resvalos (igual aquele cigarro que ex-fumantes deixam queimar de madrugada, abaixados atrás do tanque, escondidos de si mesmos - visto que não há ninguém em casa). Eu não posso reclamar que não vejo o Sol se permaneço com os olhos vendados. E tenho certeza que, para os meus olhos vazados, a medicina há de conferir algum colírio que melhore essa situação.

(...)

Pensando na efemeridade das coisas, eu fiquei pensando como as pessoas vão se lembrar de mim. Eu sempre escondi meu nome. Meu rosto. Eu sempre fui máscaras...
Então, tirei um dia inteiro para me stalkear na internet. Está lá, para todo mundo ver, um artigo que publiquei sobre a História da Constituição Estadual do Rio Grande do Sul; está lá, para todo mundo ver, qual o meu trabalho; que eu já fui convocada para participar de Tribunal do Juri; que eu já passei em uma Universidade Federal; que eu declamei uma poesia em cima de uma cadeira; que eu assinei uma petição online pedindo Guns N'Roses no Brasil (e me senti uma pseudo-analfabeta com a minha ortografia da época). Enfim... Tantas outras bobagens. (...) Mas ninguém sabe que eu fui a Flocon de Neige de alguém. Que meu nome não é Alice. Que eu já fui Cass, sem nunca querer ter sido. Ninguém sabe por que NoFX tem tanto significado pra mim. Qual meu posicionamento político. Qual meu escritor favorito. Quem eu sou. O que eu quero que o mundo saiba de mim, que o mundo tenha de mim.
Essa superproteção que eu mesma me confiro, onde nem mesmo meus mais próximos podem responder esse mundo de informações que eu guardo só para mim.

(...)

Hoje, eu prometi para mim mesma que não escreverei mais coisas tristes aqui pelo simples motivo de que, hoje, um mendigo parou o meu andar apressado na rua para me pedir um cigarro. E eu dei o meu cigarro e mais o resto da minha carteira. Ele precisava mais do que eu. Ele tinha ataduras brancas nos pulsos. Ele precisava mais do que eu. Ele me agradeceu com muito carinho, quase sem acreditar a "bondade" que eu lhe fazia. Perguntou-me:
- Tu é casada, mocinha?
- Sou. (menti - por que eu menti para o mendigo?)
- Eu sou viúvo - ele me disse. - Que idade tu tem?
- Tenho 23 anos, sr.!
- Ah, mocinha! Não me chama de "senhor"! Sabe, tu tem a idade da minha filha. E eu só posso te dizer uma coisa: eu talvez não tenha sido uma pessoa boa pra minha família, mas tu pode ser para a tua. Não erra como eu errei, tá?
(E a partir dali, eu parei de ouvir o que ele falava. Cuidei que as pessoas que passavam por mim, e percebiam que ele falava comigo, riam com cara de pena e um pouco de nojo. Depois, percebi que ele tinha os dentes sujos e os olhos verdes. A pele tostada pelo Sol.)
- Tu é uma menina muito legal, mocinha! Eu te desejo SUCESSO! - terminou, falando.
Foi um soco no estômago.
- Obrigada! - respondi.
Quando dei as costas para ir embora, ele me chamou de novo para perguntar:
- Posso saber teu nome?
- Meu nome é Ana! E o seu?
- Sid! Sidnei!
Sorri.
- Tudo de bom para ti, Aninha!

Se a vida era ruim e injusta com ele, eu não sei. Mas ele tinha aquelas faixas nos pulsos que eu não queria que ali estivessem. E ele tinha os olhos verdes mais brilhantes que qualquer pessoa poderia ter. E, se ele, que nada sabe de mim, me desejou SUCESSO, por qual motivo eu não devo lutar por isso? Pelo MEU sucesso?
Eu posso andar sozinha. Eu tenho as minhas pernas.
(E o meu sorriso é muito bonito.)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sépia

Li, certa feita, em algum lugar por aí, que não demonstrar o que sentimos por alguém especial é "muito, muito feio". Talvez, de uma forma um tanto oblíqua, eu consiga clarear como o mundo se apresenta para mim. Ademais, começo essas tortas palavras com uma breve observação: com ele, aprendi que já não preciso explicar a pureza do que é verdadeiramente o verbo 'sentir' (aquela análise romântica que a primeira metade do século XIX trouxe para dizer, com muito significado, o que jamais seria breve:  a essência que tinge os olhos em um brilho cristalino, os tons rubros que só ele limita em minhas bochechas, ...). Basta - simplesmente - sentir.

Ele pegou a minha mão e a volteou, cuidadosamente, no ar, me convidando para entrar na dança. Completei o giro e sorri. Os olhos baixos. A música nem era aquela que precisava ser e eu não encaixei no ritmo. Nem devia. A música certa estava dentro das nossas cabeças e o ritmo iria ser como nós quiséssemos. A dança era nossa e não dos outros. O beijo veio e também dançava. Pálpebras fechadas. Felicidade brevemente contida. Brevemente.


O conforto do silêncio que é só teu vai me fazer falta nesses últimos capítulos que 2014 ainda reserva. No último dia em que estivemos juntos, todo o teu sorriso me engolia - e ficou registrado dentro da minha íris tal qual fotografia antiga. Dizem que, quando é assim, tudo aceita a explosão em labaredas, mas o momento não. A imagem não. Fica. Permanece. Intacta apenas para quem percebe a coerência. Colorindo o tom sépia.

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Qualquer coisa

Quando me pediram para, naquela folha em branco, escrever "qualquer coisa" menos as palavras "qualquer coisa", estive em uma situação de pré-pânico. Mentira. Mas pense você, leitor, se sua vida dependesse de "qualquer coisa" que você TEM DE escrever em uma folha em branco.
Qualquer coisa! Pode ser uma palavra, uma frase, um texto, um trecho de uma música, a música inteira, várias músicas, uma sinfonia ou o intervalo da respiração! E aquilo ali, aquele vazio significativo traduzido em letras, se transformaria em uma avaliação psiquiátrica que jamais retornaria com o mesmo significado de que foi enviado.

Lembrei de uma estória que a professora leu para a classe, quando eu tinha uns 8 ou 10 anos:
Era uma vez um menino mentiroso. E a mãe do menino quis mostrar pra ele que mentiras machucavam. Pediu para ele que, toda vez que ele contasse uma mentira, por um período determinado de tempo, que enfiasse um prego na madeira da cerca da casa. E assim fez. Terminado o tempo, a mãe pediu para que ele passasse o mesmo tempo evitando de contar mentiras e, quando assim o fizesse, que retirasse um prego da cerca. Extinto o tempo, o menino estava contente que havia retirado todos os pregos. Foi então que a mãe o levou à cerca e mostrou os buracos na madeira e disse-lhe: "Vês? Perfuraste a madeira com tuas mentiras. Da mesma forma, os buracos que ali estão encontram-se no coração das pessoas a quem tu endereças as calúnias."

Na imensidão infinita de possibilidades, eu escrevi a palavra que mais amo, que mais me define, que está estampada na minha carne de tantas formas, na minha alma, na dos outros: cicatriz.


Todos temos cicatrizes, mesmo que não sejam físicas. Atrás da retina, corre a cor do remendo de algo que quebrou. Têm aqueles que conseguem encarar e dominar a dor - sim, pois cicatrizar é processo lento e dói, sangrando e infeccionando algumas tantas vezes durante o processo - e outros que procuram fugas - em comida, drogas, pessoas, vícios, estudos, trabalho. Fuga de respirar fundo e encarar. Encarar as culpas, os motivos pelo qual há uma marca tão funda abanando para o futuro que vem a fim de trazer mais das mesmas.
As pessoas resvalam e se cortam - as mãos, os punhos, as coxas... E aquele sangue limpo, inocente, líquido, leve, brota devagar, sem perceber. E escorre. Escorre e suja. Às vezes seca, outras não - segue como o mar, incansável, a extinguir-se em gotas tristes e rubras, mesclando-se aos pés que tentam erguer.
Das físicas, eu tenho algumas e lindas. Cada uma delas me traz uma lembrança diferente. Um gosto no palato, um aroma específico, uma luz mais ou menos brilhante e independente da abertura das pálpebras. Das emocionais, sinto que coleciono também as cicatrizes que não são minhas. Não me pertencem. Mas estão ali! Surgem em sonhos, em pensamentos. Surgem, principalmente, nos momentos de calmaria, como que um aviso para dizer "Hey, lembre o PORQUÊ de ainda estar aqui, de pé, erguida, sorrindo!". Particularmente, é NESSE momento que tenho medo. De falhar nas minhas ideologias, de romper a carne que, a muito custo, fechou com fragilidade há pouco tempo. Blábláblá.

Eu escolhi uma palavra. E só eu sei o quanto ela me define e está presente comigo no meu dia-a-dia. Não posso dizer se o meu "qualquer coisa" é um qualquer coisa correto, mas é o que eu amo ter, apesar de.
E você, que "qualquer coisa" escolheria?

sábado, 29 de novembro de 2014

Os quadros da casa - parte III

Tão decidida a manter aquela parede em branco, respirando vazia frente aos tumultos desorganizados da poluição das outras paredes do quarto que possessivamente chamo de meu, deparei-me em contradição. De Lestat, à parte de todas as imaterialidades que me concede, ganhei um quadro e eternos sorrisos que vão se construindo e mantendo em meus lábios.
O quadro é enorme e tão lindo, em preto e branco, com um breve detalhe em vermelho - uma explosão de cor, sentimento, paixão e raiva em meio à paisagem tão conhecida pela minha íris. Chove em Paris e cada traço me empurra cada vez mais dentro daquilo que fui deliciosamente obrigada a viver e arrancada da construção do meu mundo.
Eu acreditei que a parede respirava, sozinha e nua, quando, em meio àquele espaço, pus minha ambição em molduras. Esse homem entendeu meus sonhos quando, em silêncio, eu respirei a vontade de voltar às lembranças que eram minhas. A infância. Os melhores sentimentos. O quadro fez-se janela à menina do quadro ao lado, na parede comunicante, que observa um lugar onde eu consigo respirar de verdade. Lá, eu fui. E eu voltarei - para ficar. Em mim.


"Quando você já acorda, a vida já passou."

Não quis a luz do dia hoje. Deixei a veneziana do quarto encerrada o tempo todo em que houve Sol. O medo de sentir arder as retinas. O medo de adormecer. De dormir demais... E eu dormi. E ele tava lá, dentro de mim, me mostrando com todas as gotas de suor escorrendo pelas costas, todos os meus medos que eu nunca quis ver. Que nunca me doeram. Que, na verdade, eu sempre fugi de pensar a respeito para que não doessem, porque, apenas no pensar 'só um pouquinho', meus olhos já vazam feridas de algo que nunca cicatrizará. E todo o pus que escorre sou eu. Sou eu tendo nojo de mim mesma. Sou eu tendo vergonha de todas as dores que eu causei em silêncio sem ninguém nunca saber. Só eu sei. E só em mim arde a dor. Só em mim.
Sou eu tendo medo. Eu, que sempre tratei o "ter medo" como uma opção. Eu, que sempre caí, sempre estive com escoriações pelo corpo inteiro, com equimoses, hematomas, e todos os termos técnicos para tudo aquilo que a pele mostra que um dia doeu. Todas essas cicatrizes dentro de mim, escondidas por um sorriso tão maior que eu, mas que minha boca expele sem, muitas vezes, saber o motivo. Eu, que sempre caí, continuei andando de joelhos, em carne viva, para não parar no caminho. Só para não ter que reconstruir. Reconstruir leva tempo e nós nunca temos tempo.

"Quando você acorda, a vida já passou."¹

E ele estava lá e escorria suor em cima de outra que não era eu. E eu batia nele com raiva e chorava querendo expulsar de mim todos os momentos felizes que nós tivemos - como se fosse possível apagar da memória as cenas que a gente não quer ver. E ele ria de mim. Ele ria.
Eu não sei mais ser a melhor. E de nada adianta usar saltos todos os dias se eu não sinto minhas pernas. De nada adianta ter a postura invejável, se eu me dilacero de vergonha. "Tu é grande, tu é forte!", ele me disse e me fez repetir. Mas foram outras as palavras que eu disse e que ele não quis ouvir. As palavras que eu nunca disse e que ele nunca vai saber. O incômodo que sou.

"E eu suei nos teus lençóis a frase com a qual eu te engasguei quando tu me engoliu."²

¹ CANEPPELE, Ismael. "Os famosos e os duendes da morte" - São Paulo: Iluminuras, 2010.
² http://antiteses.bandcamp.com/track/at-um-outro-dia

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Borboletas

Era domingo e a menina estava esperando, sem muita pressa - nem muita vontade, a vinda da segunda-feira. Já era tarde da noite, também. Deveria estar dormindo! O dia seguinte seria longo e possivelmente não agradável. Um barulhinho conhecido rasgou o silêncio debaixo da cama: havia perdido o celular e acabara de encontrá-lo por um simples acaso. Alguém telefonava. Alguém lhe desejava falar.
Ao ver de quem se tratava, a menina estranhou. Por milésimos de segundo, preocupou-se por pensar que algo ruim havia acontecido (ah!, essa mania que o ser humano tem de sempre esperar o pior...) e por outros milésimos de segundo, foi consumida por uma agonia: demorava demais para atender aquela ligação advinda daquele homem que, por algum motivo, queria ouvir sua voz.
Quando atendeu, o "oi" que surgiu do outro lado da linha lhe trouxe uma alegria inexplicável. Possivelmente aquela bobagem que escutamos sobre as borboletas no estômago...
- Liguei para dizer-te que faz uns minutos que estou deitado em minha cama e estou pensando em ti. Liguei para dizer-te que estou com saudades.
Aqueceu. Enrubesceu. Explodiu para fora de si todas aquelas palavras que não acreditava que ouvia. Não lembro exatamente o que a menina respondeu naquele momento, mas ela soube valorizar aquela atitude da melhor forma que poderia. Abraçou aquele homem em pensamento e refez em sua retina cada traço da pele dele. Desejou correr em direção àquela voz, mas era tarde... Era tarde da noite, apenas. Faria tudo para vê-lo assim que amanhecesse. E fez.
A menina fez, todos os dias que vieram na sequência, o que suas mãos pequenas conseguiam fazer. E enquanto descobria que o amava, descobria que se amava também.
Todas as chagas se fecharam. E as poucas e pequenas que permanecem abertas, ele as vem fechando com toda sua capacidade de oferecer sorrisos. Desde esse dia, ela o aceitou nela e ele, mesmo tendo tido alguns princípios de fuga, carregou-a junto a ele. Desde esse dia, eu te amo dentro de mim. Aceitei em meu ventre tantas borboletas quanto poderiam caber. Romperam os casulos e disse "sim" a uma invasão de tantas cores  quanto minha íris  nunca pensou ter capacidade de conseguir enxergar.


quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Querido Diário,
Hoje eu rompi em lágrimas. Conto como se fosse novidade, já que fazem alguns dias que eu não me transformava em chuva. Entretanto, dessa vez, não doeu. Não foi um ato de abandonar chagas. Muito pelo contrário: trouxe para dentro dos meus sapatos algumas pedrinhas pontudas para sangrar meus pés.
Faz umas noites que não tenho dormido. E mais umas tantas que tenho sido consumida por maus sonhos, nos poucos minutos de cochilo. Acontece que, infelizmente, esses pesadelos se incrustam em minha memória, confundindo-se às vivências doloridas que tive. Às vezes eu sinto que preciso sangrar para saber diferenciar isso tudo, para  conseguir respirar mais fundo.
O tempo está passando e eu continuo engolindo essas dores de cabeça que surgem sem motivo. O tempo vai passando e ainda estou com o cenho escondido às coisas que eu queria ser. Eu queria ser e não fui. Jamais serei.
(...)
Diário, tu és esta folha de papel inútil e morta, enquanto eu, aqui, faço de conta que tens vida e que conversas comigo esses anos todos, no mesmo transe em que minhas lágrimas morrem dançando com a água do chuveiro. Veja bem: hoje eu chorei e não senti nada. O dia amanheceu cinza também. E parece que essas últimas 24 horas duraram o mês todo mesmo que, ainda, daqui uns minutos, vai-se embora outro dia e eu não sei direito o que eu fiz com ele.

Obs.: Eu quero fugir de novo. Mas não quero fazer isso sem ele. 
Por que ele me entende?

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O aroma da minha insônia

O aroma de café na memória me fez levantar. E quando vi ele e ela deitados, percebi que, mesmo jamais tendo sido três, era o que eu deveria fazer. Ao aquecer a água, já sabia que nada adoçaria melhor aquele momento do que o sono profundo deles e que o café deveria ser amargo mesmo, para fazer sorrir o bom dia.
Fiquei deitada muito tempo sem querer estar. Dormir tem sido algo tão difícil e me dói... Não exatamente por ter algo que me incomode, mas eu simplesmente já não consigo mais. Ou não vejo mais razão. Tanta coisa pra fazer, pra correr atrás, o horário que não dá nunca mais para perder...
Se bem que, só pelo fato de negar várias supostas preocupações, elas já existem e estão ali, em mim. Muita chuva deve chover de verdade – sem ser só o barulho reproduzido em caixas de som. Talvez seja essa espera, que chova logo, para que eu possa abrir arco-íris em meu ventre, assim como ele abre em si, toda vez que sorri para mim.
Era escuro, e mesmo de olhos fechados, eu sabia que lá estavam, brilhantes e castanhos, os olhos dele repousando na minha tez. Senti minha palidez fazendo-se rubra enquanto aguardava os sonhos que nunca vieram. Aqueles sonhos ruins que fizeram Beatrice estremecer há tantos anos...
Entendi hoje que deixei de ser Alice. Acabaram-se as ondas no cabelo e o mar dos olhos. Ninguém pode se esconder atrás de uma máscara eternamente. Ou melhor, provavelmente possa, mas não deveria. E eu não devo também! Eu não sou mais Alice, embora siga sendo uma menina de riso fácil e dores escondidas. Assim como todos. Todos temos essas águas que não derramam em cachoeira. E essas águas tantas, eu arranquei da minha retina e do meu verbo. O verbo faz-se luz.



Olhando as paredes brancas, o café escuro entrou na xícara. E, em valsa, percebi que sou mais leve que uma pluma, de repente. “Não mais que de repente”.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Voila le portrait sans retouche

Piaf aimait le boxer et a consacrée des oeuvres formidables aux memoires qu'il lui a ofert. Je ne me trouve pas comme Mademoiselle chanteuse, mais, plus précisement, comme une mademoiselle qui aime et, comme ça, j'aimerais bien dire des petits mots. Peut-être une petite lêtre (?) ...



À Toi.

Tu vois, les bagages des mes voyages, j'ai oubliée d'aporter avec moi chez toi. C'est trop simples: mes rêves ont une nouvelle couleur, un goût de caramel unique. Je suis remplie et je suis heureuse! Tout ce que je veux, maintenant, c'est commencer un bagage differént, avec toi. Un bagage pour rester. Prend ma main et reste. Reste ici comme j'ai restée.
C'est pas vraiment un jeux d'enfant, mais on est cap. Je le sais (et toi aussi). On est cap pour accepter la bonneur, le soin, les mots d'amour. On est cap pour joeur, dancer et chanter une éternité de scènes qui sont encore à venir.
Tout bas, tu m'a écoutée en train de chanter un extrait d'une mélodie très connue. Une musique avec tant d'expression et sens. Allons-y! Tu sais bien que tes yeux sont "des yeux qui font baisser les miens", et que mon rire avec toi c'est "un rire qui se perd sur sa bouche". Et, bon, "voila le portrait sans retouche, de l'homme auquel j'appartiens." Aussi, toutes tes traces sont coincé dans ma peau. J'attache, tout les jours, la façon particulière et énigmatique que tu me regarde - avec tant éclat et brillance.
"Oui". C'est mon premier mot de tout ce monde qui nous attend.

Je t'aime.
T'on ange.

"Alors je sens dans moi mon coeur qui bat".

sábado, 18 de outubro de 2014

A Causa Secreta

"(...) os olhos não puderam conter as lágrimas, que vieram em borbotões, lágrimas de amor calado, e irremediável desespero."

Ela transbordou em chuva. Tempestade.
Já não sabia se sentia raiva dele ou de si. Já não sabia se aquilo tudo voltaria a fazer algum tipo de sentido naquela montanha-russa sem trava de segurança. E as primeiras palavras que falou para ele foram consumidas por soluços e afogados em rancor. E o desespero dele ficou embebido no silêncio, como se pudesse transmitir calma e serenidade. E ela quis bater no peito dele até ele abraçar ela e mentir dizendo que ela teve só um sonho ruim.
Mas ela estava cansada de mentiras, de tentativas inexplicáveis, de fugas sem sentido. E ele precisava se encarar e tentar adivinhar o que era melhor para ele, sem ver ela triste. Ele não entendia que ela sempre fugia e, pela primeira vez, ela queria ficar. Ela não entendia que ele já tinha ficado tempo demais.

De repente, chegou o último dia. O abraço que deu nela, de despedida, foi recheado de um ne-sais-pas-quoi muito especial. Talvez tenha sido só um abraço, mas ela quis dar um significado para aquilo. E os beijos que vieram depois tiveram um gosto único. Enquanto passava os dedos pela barba dele, conseguia pensar apenas no quão lindo ele é, o quanto o queria bem, o quanto já sentia saudades... E ele perguntou:
- A gente ainda vai se ver, né?
Quando saiu de lá, não sentiu nada. Não estava triste, nem estava contente. Não sentia nenhum vazio, mas também não se sentia repleta. De repente, atravessados os portões daquele prédio, parou de andar e, sem olhar pra trás, disse em voz alta: "Agora preciso compreender que tu não és mais meu".

Assim, tudo findo, iniciou-se um novo começo. As esperanças de dar certo se confundiram com a fumaça do cigarro que ela fumou e extinguiu no ar escuro da noite. Acabou o foco e sumiu o rumo. Quando chegar o dia "D", talvez ela já não queira vê-lo, nem tocá-lo. Talvez ele queira ela de volta...
Ela, que já transformava seu nome, descobriu-se réptil novamente. Já não sabia como ele se sentia e nem quis adivinhar. Acabou. Acabou!
Acabou e foi melhor pensar dessa forma, tatuando em si, na alma, para não esquecer. Porque é melhor não criar expectativas e ser surpreendido, do que abraçá-las e frustar.


sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Epitáfio

Eu só queria que tu soubesses que, muito antes de eu existir em ti, eu era muito pior do que naquele momento. E eu sofri muito por ser daquele jeito. Eu lutei muito contra eu mesma.
E eu consegui vencer!
Eu venci eu própria! Eu fui linda e sincera comigo. E eu estava bem. Eu estava conseguindo permanecer em mim sem os remédios, sem as bengalas, sem os artifícios...
Só que hoje... Hoje eu tive uma recaída e não tinha ninguém para me erguer, estatelada no chão úmido, me dizer o quanto era estúpido eu voltar a ser aquela "eu mesma".
E eu me contive. Me dobrei em tantas dobras que eu quase não conseguia respirar.
Tudo o que eu usava para me auto-destruir, que o psiquiatra, naquela vez, me enumerou, eu consegui não usar. Eu não fumei compulsivamente. Na verdade, eu não fumei um cigarro sequer! Também não tentei conhecer ninguém novo, nem fiz questão de me mostrar "útil" para qualquer um. Eu sou tua. 
Mas eu bebi. E quanto mais eu bebia, mais eu tinha vontade de chorar. E a cada lágrima que mastiguei, eu quis ter um corte em mim. Uma dor presente. Algo que me dissesse: "Sim, Cass, tu estás viva ainda! Sim, Cass, algum dia isso vai parar de fazer sentido."
Essa coleção de tatuagens mal cicatrizadas, esses processos quelóides que estão bem dentro de mim e que só eu vejo... Só eu vejo. Se tu visses tudo o que eu vejo, possivelmente tu não me segurarias mais a mão.

"- Tu sente falta disso, né?"

Eu sinto. Eu sinto falta de alguém que me... Eu sinto falta de como eu era suficiente.

E então, vem a chuva desabar. Explode pelo vidro da janela. E eu vou pra rua e me deixo lavar. Como se fosse me fazer bem. Como se o pingo grosso e dolorido fosse levar embora todo esse buraco dessas chagas desses anos todos. E tudo o que consegui perceber é que não tinha ninguém ali além de mim. E que eu sinto frio.
Ravel sussurra dentro do meu peito: "É coragem. É coragem!"... Enquanto eu me sinto fraca. E fraca.

Se tu choras como dizes, me mostras que és de carne como eu.

sábado, 20 de setembro de 2014

Anoiteça e amanheça eu.

Era domingo, manhã, dia bonito. Pelas pálpebras fechadas, sentiu os raios finos, sinceros e dourados do Sol atravessando a veneziana fechada - que mantinham o quarto escuro - iluminando a lembrança colorida na memória. Percebeu uma breve agitação: ele havia acordado. Devagar, Alice abriu o mar dos olhos, sem ressaca, e fitou o rosto de Lestat. Ele a olhava com tanta doçura e de uma forma tão mansa, que o corpo dela e seu coração e seu sorriso vieram a transbordar.
Envergonhada, Alice puxou as cobertas até tapar toda a cabeça. Sorrindo, ele puxou a menina para bem perto de si. Fez-se travesseiro ao aninhá-la em seu peito. Calmamente, os cobertores foram descendo e reapareceu a tez rosácea das bochechas dela a fim de contemplar as pequenas covinhas que se faziam tão presentes nele quando, finalmente, aceitava a felicidade.



Não era necessário falar, jurar ou pensar qualquer palavra, situação ou expressão para entender o que seguia acontecendo. Ele estava ali e ela também estava.

domingo, 31 de agosto de 2014

Se cuida, k?

"Anjo". Ele ainda me chama assim. Talvez chame tantas outras, mas não quero saber das outras. Eu ainda sou a "anjo" dele e, assim, ele me mantém nele. E eu sou toda dele desde o dia que eu disse que era.
No trem, o caminho me afastava: a cada segundo, metros mais longe. Na garganta, mantinha preso um certo arrependimento da decisão que ele tomara. Sabe lá o que me esperaria? (...) Mas é ele! É ele quem eu quero, para quem eu sorrio com o animus verdadeiro e para quem (ainda) despejo meus esforços e preocupações. É esse homem de tez pálida, olhos indecisos e sorriso doce por quem guardo sonhos, ciúmes e até liberto algumas lágrimas.
Anjo também quer! E eu... Eu tudo isso, porque ainda sou tua "anjo" em algum canto da tua memória, no verbo expelido pela tua língua.

domingo, 24 de agosto de 2014

Relicário

O cenário era o clássico bar. E, apesar de eu não gostar de frequentar esses lugares públicos em finais de semana, fiz-me presente na sexta-feira. Sem ninguém conhecido por perto e embalada pela voz da moça do reggae, acendi a única companhia que eu poderia aceitar, talvez, naquele momento.
Enquanto o filtro vermelho queimava com pressa entre meus dedos, borbulharam lágrimas sem permissão. Eu estava sozinha, triste, envolta pelo sentimento de abandono... Mas eu estava em mim. Éramos eu e aquele reflexo de eu mesma que passei anos evitando ver. Eu e meus vícios.
Mas eu não queria... Eu não pude... Eu deveria mudar? Eu... O quê? Por que doía tanto? Por que era e depois deixou de ser? O que, em mim, estava errado? Onde estava minha (des)qualificação?

O cigarro terminou e começou a tocar aquela velha música... E eu cantei. Eu cantei tentando me desvencilhar de todos os nós que a garganta apertava.
Mergulhei nas memórias de todos os dias em que me vi em tua retina.

"O horizonte anuncia com o seu vitral que eu trocaria a eternidade por essa noite.
Por que está amanhecendo?
Peço o contrário: ver o sol se pôr!
Por que está amanhecendo?
Se não vou beijar seus lábios quando você se for."

(insiro aqui um vídeo particular:

Alice estava deitada na cama, olhando ele em pé. Ele estava em pé, olhando Alice deitada na cama. Ele disse: "tu estás ainda mais linda hoje do que no dia em que te conheci". Alice sorriu por dentro e por fora, e ele deitou ao lado dela para lhe dar um beijo, para lhe oferecer o peito como travesseiro.)

"O que está acontecendo?
O mundo está ao contrário e ninguém reparou.
O que está acontecendo?
Eu estava em paz quando você chegou."

E desde então, as palavras de Nando Reis ainda não perderam sua estampa da minha pele, mesmo com todos os banhos que eu tomei. A cada gota de tempo, venho descobrindo um preenchimento particular de agonia em algum ponto estranho do meu corpo. Eu simplesmente não entendo. O que está acontecendo?

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Escorre

Sobre as gotas de água que caíam em minha face, eu já não conseguia discernir se eram da chuva batendo delicada na janela, do chuveiro onde eu estava tomando banho, da sensação de acordar do desmaio, ou de tudo ao mesmo tempo. Quando dei-me por conta, as águas que escorriam corriam dos meus olhos em soluços.
Chorei tudo o que não chorara no último ano. Todas as dores que segurei e mantive no osso do peito acabaram por se soltar, uma a uma, e se arrastaram, rápidas e violentas, para o ralo. De repente, tive vergonha de ter me aberto para eu mesma e aceitado vomitar o que me entalava. A estranhez de situações modificáveis e repentinas...
De joelhos, nua, no chão molhado do banheiro, esvaziei minhas superficialidades. Segurava o ventre com força enquanto assistia o adeus em sangue de algo que nunca foi. A palidez das minhas coxas arderam como se a carne quisesse se abrir.
E, talvez, tenham mesmo se aberto e eu só não vi.


quarta-feira, 9 de julho de 2014

Deixa? Tic-tac.

Ainda não descobri que rosto tem a minha liberdade. Eu sei que ela me dói e faz chorar às vezes. Essa busca insaciável pelo bem-estar, pela paz, pela cicatrização do peito aberto... Eu cansei. Que se dane! Talvez custe curar os cortes, mas, ao menos, eu paro de perder tempo.

(Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.)

A ferida aberta me diz: "Calma! Segura um pouco...". Em simultâneo momento, os tecidos inteiros urram: "Deixa machucar!".

(Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.)

Se os peixes pararem de nadar, as águas não vão parar de correr. Se eu dormir uma hora a mais, o dia já vai estar quente e vou ter perdido o arrebol da segunda-feira...

(Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac. Tic-tac.)



Quero me enrolar na tua língua, ter espaço entre os teus dedos, ser a responsável pelo aparecer da covinha na tua bochecha quando sorris. Quero beijar tuas sardas, me embebedar no mesclado alcoólico dos teus olhos, redesenhar em mim todas tuas tatuagens. Quero ser o pronome possessivo que os teus lábios expelem, ser explorada em cada arrepio, ser teu par em todas as danças. Deixa que eu largue de ser cigana e me transforme na tua chave, teu perfume, tua cama? Deixa eu deitar nos teus sonhos?

quarta-feira, 2 de julho de 2014

As matizes dos teus olhos

Acostumada com a imagem pálida que a vida pintou em sua tez, através das cicatrizes, Alice abraçou as cores que tinha (e que, talvez, ainda tenha) na véspera do primeiro dia de inverno. Aceitou, com facilidade, todos os sorrisos que podia dar, e os ofereceu com tanta calma quanto os sonhos que a beijaram naquela noite, sem se recordar exatamente.
Igual há dois anos, misteriosamente, o inverno amanheceu ensolarado! Pela primeira vez, as luzes do dia não lhe arderam o olho e pudera contemplar cada sarda daquele outro rosto para, só assim, transbordar na paz que buscara. As matizes esverdeadas dos olhos de Lestat sorriram o silêncio do bem-estar.
No momento em que a fumaça bailava do âmago às nuvens claras, ela percebeu que era a primeira vez que o via de dia. Sua barba crescera tanto em tão poucas horas... Era a primeira vez que Alice aceitou que aquilo tudo era diferente, mesmo não devendo ser.




Tes couleurs léchent ma rétine, même quand je suis avec mes yeux fermés.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Réflexe acoustique

Há muito tempo, decorrente de outras histórias, sofri ouvindo "Hurt" do Johnny Cash. Hoje, todos esses anos após, surgiu de um violão o dedilhado inicial que me fez trincar por dentro. Talvez eu tenha ficado muito tempo imóvel, tentando manter em mim cada pedaço no lugar... Mas foi com os dedos daquele moço, tocando com tanta dor cada corda do violão, que eu fui me transformando em pedacinhos.
Meus pensamentos estavam turvos e se esvaíram junto com todos os rodopios da fumaça do cigarro. Não lembro exatamente como, mas a música parou e, mesmo assim, prosseguiu ecoando na minha cabeça durante tanto tempo mais...

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way



Tive a impressão que olhei-me no espelho no momento errado - ou talvez eu tenha apenas conseguido ver o que todo mundo percebe e que eu negava enxergar todos os dias: eu era aquela xícara favorita que quebrara tantas vezes a ponto de se transformar em um amontoado de retalhos unidos com super-bonder. Deixei de ser aquele objeto cotidiano e bem querido para me transformar em uma confecção descartável. Ainda assim, só queria poder ser capaz de transbordar uma última vez...

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Pulp fiction

Com as vontades escondidas embaixo da jaqueta de couro, o rapaz, que carregava no olhar e na postura um pouco do que Elvis tinha, acendeu dois cigarros. E enquanto a fumaça rodopiava em sapatilhas de ponta, um deles foi parar na mão da moça, que agradeceu a gentileza com os olhos. Era noite e as únicas luzes que o lugar apresentava estavam ocupadas beijando o tapete verde recheado de bolas de bilhar.
Envoltos pelo barulho, entre eles passeava um respirar silencioso - como se aguardassem o exato momento para. Enquanto, as fumaças iam deslizando pelos dedos e gargantas, acariciando as faces. Sem pedir permissão - porque não era preciso -, o rapaz pegou a mão da moça, e se deslocaram para um pequeno espaço onde era possível dançar. Ali, em suas mentes, montaram um pequeno palco onde, por uma brevidade de segundos, fez-se os anos 1950.
Os sorrisos, outrora tímidos, se consolidaram entre giros. Ninguém precisou explicar; todos entenderam o que havia acabado de acontecer.


sábado, 7 de junho de 2014

Algum tipo de ponto.

As faces coradas gritavam desesperadamente a expressão de arrependimento. Embora as palavras não viessem, e o silêncio dominasse aquele quarto, nossos olhos se comunicavam: os dele me diziam que eu não devia... me questionavam por que eu era... E os meus respondiam, desculpando-se, que eu não... que eu me vestia de culpas...
Lá fora, a negritude riscada da noite que chove. Dentro de mim, algo havia trincado, mas eu não conseguia ver onde.
A mudez dos corpos, envergonhados por terem se divertido extinguindo a saudade, acabou quando minha voz apresentou-se:
- Teu rosto está horrível!
Enquanto eu segurava o desespero entalado na goela, ele me segurou pelos ombros, na tentativa falsa de me fazer entender que estava tudo bem.
- Não venho mais aqui.
Em insistência, engoli o que me rasgava e ele me abraçou, murmurando um "não" abafado. Parte dele me queria ali e parte dele queria que eu nunca tivesse aparecido.
Na porta da minha casa, usou de palavras para me tranquilizar - as mesmas que não dissera no momento em que nossos olhos conversaram. Uma a uma, iam se apresentando em tons mentirosos, unindo-se àquilo que eu sentia. E toda a alegria que me inundara, por ter aceitado aquela escuridão na minha pele, se transformou em uma culpa que não era minha, mas que eu carreguei com o aceite de todas as chagas embutidas.
O meu corpo tinha o cheiro dele e minha cama estava gelada. Mais uma vez, eu dormia só, embora fosse a primeira vez que arrependida por ter colocado tristeza nos olhos negros daquele homem. Ele voltou para a casa dele e também dormiria sozinho, enquanto o quarto mantinha o calor de nossa vergonha.




...And a sense of guilt I can't deny
What happened to the wonderful adventures?

sexta-feira, 23 de maio de 2014

Bonjour, prince...

Estavam os corpos em contraste, úmidos e presentes. O gelado da cerveja a estalar línguas unia-se à projeção mútua entre íris. A ponta dos dedos extravasavam um sentimento proibido na pele do outro. Deixou ser invadida pelos olhos negros dele, enquanto ele sorria, contido, toda a felicidade compartilhada que ninguém mais sentiu. Talvez ali, sem ninguém saber, estivesse uma nova caixa de Pandora – essa, a guardar toda a serenidade que o mundo não soube abrir.
Os sonhos restaram recolhidos em face da realidade tragada pelas madrugadas insones. A mocinha ficou analisando cada traço do rosto adormecido do menino, e, mesmo não tendo sentido o cansaço de tal exercício, repousou em seu peito. Não (querer) admitir não significava que não estava acontecendo.
Sorrindo, os raios de sol pediram licença para amanhecer.


(Doom da da di da di doom da da di da di doom)


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Férias

Negros véus se estabeleceram em sua cabeça e tudo o que era luz tornou-se arrependimento. Fez-se silêncio e o fez sem dar aviso. Pôs-se em retiro, mas a noite não esperou uma solução para tombar. E tombou.
Tombando, pedregulhos e cacos de vidro machucaram os olhos dela. Foi quando a cegueira voltou a existir e vazou sangue das chagas que jaziam secas. Tudo, apenas, acabava de voltar ao normal.
O coração, murcho, batendo em um sopro cansado, entrelaçou emoções às pálpebras mal erguidas, descompondo o rosto de Alice. Por que continuar manter?

De repente, ouviu o zunido daquela frase que escutara em meio a lençóis e calor:
"- Estar contigo é como estar de férias."
As dores, outrora amortecidas, apareceram sorridentes; os rios que corriam alegres, findaram congelados - e prenderam o "patinho feio" em suas águas límpidas e cortantes da lembrança.


Enquanto a calmaria inundava o sono, eu me deixei afogar em uma tranquilidade que eu só poderia receber ali, em ondas, perfeitamente moldada à escuridão - do corpo, do quarto, da cidade.

domingo, 4 de maio de 2014

True Colors

You with the sad eyes
Don't be discouraged
Oh I realize
It's hard to take courage
In a world full of people
You can lose sight of it all
And the darkness inside you
Can make you feel so small

BUT I SEE YOUR TRUE COLORS
Shining through
I see your true colors
And that's why I love you
So don't be afraid to let them show
Your true colors
True colors are beautiful
Like a rainbow

Show me a smile then
Don't be unhappy, can't remember
When I last saw you laughing
If this world makes you crazy
And you've taken all you can bear
You call me up
Because you know I'll be there



domingo, 27 de abril de 2014

Atelophobia

De repente, fiquei cansada de engolir a água do mar que brota dos meus olhos e cansada de olhar para a água que escorre pela janela. Tanta água que arde as narinas, as pálpebras, as bochechas... O sal a corroer os dedos que já não dão conta de afastar todos os litros. A sensação de afogar.
Em uma busca desmedida por ar, encontrei-me reclusa em um conceito - justo eu, que nunca autorizei ninguém a vestirem rótulos em minha cintura. Foi então que surgiu: do que adianta (tentar) ser perfeita aos outros se está sempre presente em mim a sensação de fracasso? E essa insaciedade de sentir um algo pré-formado me dizendo que jamais conseguirei atingir o meu objetivo, o ápice do melhor para eu mesma? Que nunca serei suficiente... Do que adianta a preocupação de correr o mundo em busca do Santo Graal, se não serei eu quem irei beber e desfrutar da alegria, do mel, da calma?
Cambaleante, tentei me reerguer. Tudo o que vi foram os nove andares de concreto que me mantém em longe do chão. Deixar desabar seria uma alternativa? E se...?

Às vezes, é um pedido de 'socorro'.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Ressaca

A chuva que caiu de mim não foi muito diferente das que choveram outras vezes. Toda a água que cai, cai com a finalidade de deixar o campo mais verde, ou de trazer arco-íris... Eu continuei cinza. Talvez menos escura do que a paisagem, mas continuei cinza. Todas as águas que escorreram vieram das noites, tão claras, que impossibilitaram meu sono. Em cada gota, cada sonho em ressaca, em dúvida, a cair no cimento úmido da construção não concretizada. Tudo o que não vivi e não busquei...

E nada mais que de repente, meu medo desapareceu no teu sorriso e embriagou no açúcar da tua calma, teu jeito de lidar. Teus dedos finos redefiniram meus traços com o sal que já secou. O barro veio a transformar-se em mel, brilhante e puro, estampado na minha retina vazada.
Acalma meu mar e me ergue farol.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Janela

A janela protagonizou o enlace do negror selvagem da noite com o interior dos nossos âmagos. O céu marinho carregava, esculpido, as gordas nuvens cinzas e ameaçava o mundo com a força de maciças gotas de chuva. Estas, agressivas, cortavam em carne a voz da moça que sempre cantou as ondas invisíveis e tão características do vento.
O sofá moveu-se para melhor assistir o espetacular filme que a natureza ofereceu. Os vidros escancarados trouxeram a escuridão para dentro da nossa escuridão, que iluminava-se com as luzes dos relâmpagos. Nosso silêncio ficou envolto à fumaça das canecas de chá e incessantes clarões desenhavam-se, desnudos, frente às nossas pupilas, rasgando a memória em uma fotografia sinestésica.
Naquela noite, frente à janela, desaguaram os nossos segredos - enquanto o céu manteve o seu.

sábado, 5 de abril de 2014

Asas negras

Por tudo o que ele denominou escuridão eu só enxerguei brilho e luz. Todos os sonhos escondidos nas palavras não ditas, embora expressas, eu compreendi. Eu compreendi todo o sentido de eu estar ali. E não era apenas o meu mar ou as ondas mansas do que um dia foi pesadelo que me trouxeram presente.
Todas as cores, que eram cinzas, flutuaram sobre nós, enquanto que as tintas vivas e frescas escorriam pelos sorrisos brancos. Brancos por serem puros e sinceros, sem o amarelado predominante das mentiras, farsas e podridão. A infinitude do vazio foi-se preenchendo pelo silêncio entupido de sons não expressados e murmúrios não proclamados. O mel vazou dos meus olhos atingindo os lábios dele.

E, assim, embora não extintas, adormeceram as dores e repousou a paz em meu ventre.

sábado, 29 de março de 2014

Youth

As sombras do corpo dele esconderam a luz do dela. Cada segredo escondido deslizou pela ponta dos dedos e não houve sorriso para o mundo exterior até o momento em que escorreu o suor dos copos alcoólicos.
O silêncio fez-se música enquanto as cores desnudavam suas matizes acinzentadas através dos desenhos não pintados das paredes nuas. Alice aceitou a confusão e talvez Beatrice já não fizesse sentido.
A madrugada iluminada pelo arco-íris escondido durou a eternidade singela da ocasião gravada em cicatrizes nas retinas vivas.


And if you're still breathing, you're the lucky ones
'Cause most of us are heaving through corrupted lungs
Setting fire to our insides for fun
Collecting names of the lovers that went wrong
The lovers that went wrong
("Youth" - Daughter)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Litros

E foi exatamente quando eu acreditei que meus lábios se moldavam em um sorriso que o tal sorriso não saiu. E quando me forcei a acreditar que as coisas melhorariam, percebi que sempre seriam as mesmas. Cada lágrima que me doeu foi o sorriso que não te dei. Cada autoflagelo significou a paz que senti.
Simplesmente deixou de fazer sentido e, quando deixou, me vi com o rosto molhado. E ardeu.
Escorreu a fumaça do cigarro e me vi onde eu não sabia que poderia estar. De repente, todos os sonhos coloridos que depositei na escuridão das minhas noites passaram a serem mudos e cinzas. Todas as gargalhadas se tornaram choro e remorso. A maquiagem escorreu, o salto quebrou, o brilho caiu.
Quantos litros bastam para renascer?

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Doer.

Escondida atrás da porta da cozinha, ela chorava. Silenciosa. Sentia que o sofrimento que carregava era incômodo aos demais. Não queria ser incômodo: queria apenas parar de doer!
A inércia das palavras presas na sua cabeça – mas que se negavam a sair para o mundo além dos seus lábios – lhe deixava aflita. Haviam anotações dos remorsos e angústias espalhados pela casa, em bilhetes rasgados, que só ela conseguia ver.

Como conjuga-se o verbo “doer” na primeira pessoa do singular do presente? Eu doo? Eu doo de doar? Doar dói?

Todas as visitas sensibilizadas pela palidez da pele, pela falta de brilho dos olhos verdes caídos. A família a perguntar da transparente saúde debilitada. E aquele sorriso amarelo surgindo forte, com a mesma frequência dos comentários desnecessários, murmurando um pobre “está tudo bem” - como se ouvindo sua voz em mentira, viesse a soar uma grande verdade.
Se não está tudo bem, mocinha, por que insistir que está? Por que insistir na dor, mocinha?


terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Os quadros da casa - parte II

O meu  quarto é um quadradinho triste. Nunca foi de grande aconchego, mas eu gostava dali. Das quatro paredes, três eram poluídas – uma era totalmente invisível graças ao armário, a outra abraçava uma janela e a terceira era parcialmente escondida pelo piano.
Quando a artista (conhecedora de arte?) revelou seu enorme desejo de colocar um quadro na única parede que era vazia, entristeci. Era como se aquela parede, virgem, fosse perder a capacidade de me dar oxigênio e eu me sentiria afogada em um lugar que deveria me tranquilizar nas únicas cinco horas em que eu passava habitando – mesmo que dormindo.
Falei que não queria, que colocasse o quadro em cima do piano! Os olhos gordos e brilhantes da moça, juntamente com o mascar compulsivo do chiclete gasto, pararam de exercer suas funções e terminaram em um muxoxo.
Pregado o quadro no lugar em que eu quis ainda tive de ouvir o comentário (in)feliz de uma terceira voz: “Agora te verás todos os dias!”
... Como se eu nunca me olhasse no espelho...

E eles estavam redecorando a casa, conjuntamente, em desestrutura.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Os quadros da casa - parte I

Eles estavam redecorando a casa e, para mim, isso não fazia sentido.


A família desestruturada, desmoronando, distante da idealização contida nas propagandas de margarina... E eles estavam redecorando a casa.
Talvez isso fosse um marco. Como se, inconscientemente, acreditassem que pregar quadros nas paredes fariam da casa um lar recheado de aconchego e, com isso, conseguissem tapear a feiura dos últimos anos de casados.
A cena patética do moço segurando o quadro em uma altura determinada, enquanto que os dois, ao mesmo tempo, falavam "mais para cima... mais para a direita... aí!" rindo, "felizes", entregou a mim um pouco de inveja. E isto, certamente, por crer que os dois eram ótimos quando separados e que juntos se anulavam. Ainda, eu deveria não querer acreditar que o significado daquelas risadas pudessem ser um sinal de que as coisas estivessem dando certo.
Toda a vida, um se submetia e o outro mandava. Os dois submissos. Os dois inseguros.