segunda-feira, 20 de julho de 2026

Bukowski sabia

Das 5 irmãs, Cass era a mais moça e a mais bela. E a mais linda mulher da cidade.

[...]

Sempre muito animada ou então deprimida, com Cass não havia esse negócio de meio-termo. Segundo alguns, era louca. Opinião de apáticos. Que jamais poderiam compreendê-la.

[...]

Trazia marcas de lâmina de gilete por todo o braço esquerdo, de tanto se defender durante suas brigas. Guardava, inclusive, uma cicatriz indelével na face esquerda, que em vez de empanar-lhe a beleza só servia para realçá-la.

Conheci Cass uma noite no West End Bar

[...]

E só então percebi que estava diante de uma criatura cheia de delicadeza e carinho. Que se traía sem se dar conta. Ao mesmo tempo que se encolhia numa mistura de insensatez e incoerência. Uma verdadeira preciosidade. Uma joia, linda e espiritual. Talvez algum homem, uma coisa qualquer, um dia a destruísse para sempre. Fiquei torcendo para que não fosse eu.

[...]

“Por que você despedaça sua beleza?” perguntei. “Por que você não convive com ela?”

[...]

Foi aí que Cass tirou seu vestido de gola rolê e eu vi — a cicatriz horrível entalhada na sua goela. Era longa e grossa.

“Meu deus, mulher,” eu disse da cama, “meu deus, o que você fez?”

“Eu tentei fazer aquilo com uma garrafa quebrada outra noite. Você não gosta mais de mim? Você ainda me acha bonita?”

[...]

Eu estava cansado demais para fazer muita coisa mas nessa sexta à noite eu fui ao West End Bar. Sentei e esperei pela Cass. Horas se passaram. Quando eu estava bastante bêbado o balconista me disse, “sinto muito pela sua namorada.”

“Como assim?” perguntei.

“Desculpa, você não sabia?”

“Não.”

“Suicídio. O enterro foi ontem.”

“Enterro?” perguntei. Parecia que ela entraria pela porta a qualquer momento. Como ela poderia ter partido?

“A irmã a enterrou.”

“Suicídio? Pode me dizer como?”

“Ela cortou a garganta.”

“Entendi. Me vê outra dose.”

Bebi até a hora de fechar. Cass era a mais bonita de 5 irmãs, a mais bonita da cidade. Consegui dirigir até em casa e fiquei pensando, eu devia ter insistido para ela ficar comigo em vez de aceitar aquele “não.” Tudo que ela fazia indicava que ela se importava.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Snuff

Bury all your secrets in my skin

Come away with innocence / And leave me with my sins

The air around me still feels like a cage

And love is just a camouflage / For what resembles rage again


So, if you love me, let me go And run away before I know

My heart is just too dark to care / I can't destroy what isn't there

Deliver me into my fate

If I'm alone, I cannot hate

I don't deserve to have you

My smile was taken long ago

If i can change, I hope I never know


I still press you letters to my lips

And cherish them in parts of me

That savor every kiss

I couldn't face a life without your light

But all of that was ripped apart

When you refused do fight


So save your breath, I will not hear

I think I made it very clear

You couldn't hate enough to love

Is that supposed to be enough?

I only wish you weren't my friend

Then I could hurt you in the end

I never claimed to be a saint

My own was banished long ago

It took the death of hope to let you go


So break yourself against my stones

And spit you pity in my soul

You never needed any help

You sold me out to save yourself

And I won't listen to your shame

You ran away, you're all the same

Angels lie to keep control

My love was punished long ago

If you still care, don't ever let me know!



(If you still care, don't ever let me know!)


segunda-feira, 3 de novembro de 2025

Meu arrebol

Enquanto o céu negro e sem estrelas despenca sobre nós e o silêncio nos engole, há vida nessa casa. Uma pequena e faminta, que urge e ruge. Dentro e fora de mim. Insaciável.

Tudo mudou, com tanta violência e ferocidade, que eu nem sei mais o que me dói. Não sei, porque agora somos duas. A tua dor é a minha dor. A minha vida também não é mais só minha.

E Deus é bom. De um jeito misterioso, Deus é bom. Não aquele Deus bíblico e colérico, mas aquele algo maior que me protege de mim mesma há tanto tempo. Deus é bom. 

Enquanto o céu negro e sem estrelas despenca, estamos aqui. Enquanto o sol nos queima e o calor sufoca, seguimos aqui. Enquanto a chuva lava e as gotas congelam, ainda continuaremos aqui.

Não importa quantos trens seguirão viagem, quantas borboletas baterão suas asas, quantos passarinhos cantarão e nem quantos amanheceres coloridos nos embalarão: a Vida sempre vai estar presa nesses momentos - tão únicos e tão nossos. Só nossos. Dentro dos meus braços. 

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2025

Ava

Well I just heard the news today

It seems my life is gonna change

I close my eyes, begin to pray

Then tears of joy stream down my face


With arms wide open

Under the sunlight

Welcome to this place

I'll show you everything

With arms wide open


Well I don't know if I'm ready

To be the man I have to be

I'll take a breath, I'll take her by my side

We stand in awe, we've created life.




segunda-feira, 25 de março de 2024

Tomates cereja

Era Natal. Eu seria anfitriã. Meu apartamentozinho saltava confusão para organizar a ceia. Minha família (numerosa) chegava. Tantas petisqueiras com petiscos diversos espalhados pela casa...

Gael chegou. A porta do meu apartamento estava aberta e ele simplesmente foi entrando. Eu estava na cozinha, suja de farinha, amassando pão e, quando o vi, abandonei a sova da massa e lhe ofereci uma cadeira para sentar. Sentei em outra.

Não nos falávamos, mas estávamos ali. Era estranho, mas familiar. O mundo ao nosso redor em polvorosa e nós desfrutando uma paz apenas nossa.

De repente, a ex-esposa de Gael também estava lá e sentou à mesa conosco. Ficamos tão desconfortáveis a ponto de puxarmos assuntos aleatórios e desconexos.

Na nossa frente havia uma petisqueira unitária com tomates cereja. Vermelhos e redondinhos. Discorremos sobre o quanto gostávamos daquele e não do "grande".

Ela estava ali, com olhos de abutre, pronta para mastigar nossa alma se lesse nas entrelinhas alguma mentira. Ao mesmo tempo, ela não estava. Não estava conectada com nosso assunto sobre tipos de tomates.

Em determinado momento, na ânsia de fazê-la se sentir incluída, falei que não sabia que haviam retomado o relacionamento. Ela me olhou com profundidade e ódio. Disse que nunca haviam se deixado.

Fui tomada por um grande calor de constrangimento. Não conseguia mais olhar para Gael. Era como se... se eu o olhasse talvez o comprometesse e faria sofrer. Senti vergonha.

Fernando chegou do trabalho. Ele estava sujo de poeira e terra. Olhou para toda aquela gente (que não parava de chegar) e me chamou. Disse que não sabia quem eram aqueles. Disse que eu teria que me explicar.

E eu me senti triste e confusa.

De volta à cozinha, lembrei do pão que eu pretendia terminar de fazer. A massa tinha estragado em meio à sova e eu não tinha mais farinha.

Olhei para o lado e vi ela sentada no colo de Gael. Beijavam-se. Reconciliados.

Senti abandono.

Fernando reapareceu, limpo. E eles sumiram.

Sentei novamente e me pus a comer os tomates cereja. Sozinha, distante, inerte. Todos me olhavam. Ninguém me via.