segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Querido diário,

Todos os passos estão traçados. Nada mais é bagunçado como era. Todos os dias 12h15 um remédio. 21h outro. Todos os dias acordar às 07h55, levantar às 08h10. Todos os dias café com leite. Amêndoas. Todos os dias as sonecas pós-almoço. Chegar em casa às 18h10 e me atirar no sofá. Exausta.
Todas as segundas tenho psicóloga. Todos os sábados de manhã, costureira. Às vezes dentista, ginecologista, visita, uma taça de sorvete.
Todos os dias a exaustão de todas as horas sendo contadas na mesma lentidão. O. Tempo. Todo.
A cabeça que dói, o telefone que toca, os números sempre conhecidos, os horários sempre os mesmos, ausente a surpresa.

Talvez eu gostasse mais da bagunça.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Adultecer

   Talvez eu não precisasse ter caminhado sobre tantas brasas e cacos de vidro para ter as cicatrizes que carrego sob meus pés. Talvez também eu não precisasse ter me entregue com tanta devoção aos meus relacionamentos passados. Mas eu sempre tive essa coisa de intensidade e pode ser que isso tenha valido a pena para alguém que cruzou o meu caminho, muito embora para mim tenha sido extremamente dolorido.
   Ninguém enxerga os cortes que a alma carrega. Ninguém sabe como é frustrante tentar recuperar a sanidade através de milhares de pílulas coloridas que entalam na garganta todos os dias desde o primeiro. O ânimo de ser uma pessoa diferente, pensar diferente, agradar uma sociedade diferente da nossa própria essência...
   Não existe mais a montanha-russa, a cadeira de balanço que vai-e-vem, as milhares de cores e sentimentos. Agora é preto no branco, uma fase única, o dia e a noite sem arrebol. Agora as coisas mudaram e, sem oscilações, consigo enxergar que a vida adulta é de fato uma chatice. Não bastasse, ainda tenho que curar aquelas feridas que me atormentam de madrugada em sonhos indesejados. Não bastasse, tenho que conviver com meu passado e meus milhões de atos inconsequentes que vivi e me arrependo.
   Nada volta para ajeitar meus amargos passos e o dia-a-dia não para de correr, viciosamente, maltratando cada remorso, sem tempo para tomar fôlego. Da vida que eu tinha, eu carrego asco; do que vivo hoje, tenho cansaço. Não estou aqui, nem lá. Apenas estou. E não sei se gosto disso.


quinta-feira, 23 de maio de 2019

A fire inside

   Não existe glória em gostar de alguém. Na realidade, é a pior coisa do mundo! A gente ama, se apega, perde a noção do certo e errado, sofre, faz o impossível por um sorriso, esquece da gente, se agarra em memórias para manter o bom sentimento em momentos de crise, se submete, aceita mudanças inaceitáveis, abdica de si... tudo por algo impalpável, invisível, inexplicável. Em sã consciência, jamais faríamos o que deixamos fazer.
   Amar é perder a noção do que somos tendo inteira certeza de que estamos sentindo que somos plenamente nós mesmos. É uma contradição infame, um desejo esquisito, um sonho acordado, uma dor constante, um vício nada saudável. É aceitar o caos, a bagunça, o reboliço e estar em paz.

   E de repente aqui estamos. Tudo de novo, o tempo todo. Sempre ele.



"He bit my lip and drank my war from years before".

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Luto por Notre Dame

   Hoje uma parte de mim morre. Uma parte de mim está em chamas. Tudo aquilo que eu mais amei, tudo aquilo que guardo com tanto apreço antes, tudo queima em altas labaredas, quentes, irreparáveis.
   Esmeralda abraça Quasímodo e ambos choram. Perderam o lar e a alma. A essência e a história.
   Hoje, uma parte da minha infância se foi e a agonia não reconstrói a dor de ferida aberta que sinto. Olho para minhas mãos, para dentro dos meus olhos no espelho, e nada posso fazer. Estou longe demais, sou impotente demais. O que a água engoliu no Rio, não supera a pira.
   Eu daria a minha vida por esta catedral, apenas para que tudo voltasse a ser como sempre foi. Para resguardar a magia eterna das escadarias, vitrais e ares de Notre Dame de Paris.


quinta-feira, 11 de abril de 2019

O avião

   Tudo o que eu queria era voltar 25 anos atrás e reviver tudo de novo. Emperrar em 1997 e nunca pegar aquele avião.
   Aquele avião estragou a minha vida. Cindiu minha infância em duas e me fez amadurecer mais rápido, não sendo necessariamente a melhor coisa para mim. Não para aquela época.
   Mal tinha entendido que os dentes caem e já tinha que ter um time de futebol, entender que dançar o tchan era vulgar, que saber cozinhar era necessário para alimentar uma mãe acamada por tempo até demais, trocar fraldas de uma criança que não era minha,... Tudo depois daquele avião foi o inferno pra mim. Ninguém me perguntou como eu me sentia e nunca perguntaram, na realidade.
   A sexualidade mal resolvida, os amigos deixados para trás, uma intensidade que só eu carrego e ninguém - nem os que ficaram, nem os que vieram - entendem.
   O avião decolou e eu nem pude chorar, porque me proibiram. Eu era proibida de sentir.
   E agora, 25 anos depois, sigo pegando vários aviões sem nunca chegar no lugar certo, porque o lugar certo é 1993 e a primeira língua, a verdadeira cultura, o ar de verdade para mim... Nunca mais vai ser 1993. Eu nunca vou poder ser o que eu gostaria. Nunca vou poder viver o que eu gostaria. O tempo já passou. E continuo deixando passar. O tempo passa e eu aqui. Trancada em um avião, engolindo o choro, em 1997.