terça-feira, 25 de abril de 2017

Remo

   Às vezes sinto-me burra. Mas não burra no sentido de.
  Meu pai costumava me dizer: "Existe o conhecimento. Parte do conhecimento está nos livros. Parte do conhecimento dos livros é absorvido pelos professores. Parte do que é absorvido pelos professores é passado aos alunos. Parte do que é passado aos alunos, estes realmente fixam". Com isso, aprendi a mastigar todos os dias um pouco de sentimento de impotência, de fraqueza e a certeza de que eu nunca seria boa o suficiente em alguma coisa. O dia que eu confirmei esse sentimento foi quando fui a uma biblioteca: sentei-me em frente às estantes de literatura francesa e deparei-me que tantos e tantos livros... e a vida é tão curta! Jamais teria eu tempo para ler tudo aquilo. Para absorver a parte da parte da parte do conhecimento...
   Acho que a vida é mais ou menos isso: uma insegurança por nunca saber nada. Pensamos sempre estarmos agindo da melhor maneira e nunca é. Nunca é suficiente. Nunca vai ser. Nunca será satisfatório para nós, nem aos outros. Nunca! Aquela sensação eterna de ressaca - eu tinha certeza que beber aquelas coisas todas me deixaria feliz, mas.
   Às vezes sinto-me burra. Parece que nunca vou deixar de ser. Parece que quanto mais se rema, mais impossível é andar uma casa à frente. Sempre há uma onda que surge e nos derruba duas casas para trás. Quantas ondas são necessárias para que tudo pare? Para desistir? Para que se perceba que nunca. Nunca! Quanto tempo ainda?


quinta-feira, 30 de março de 2017

Grilhões

   Nesse exato momento, alguém está sofrendo algum tipo de abuso. Se tu fechar os olhos e se concentrar, consegue ouvir o estalo do tapa no rosto, o xingamento agressivo, o grito de "não". Nesse exato momento, a situação de abuso já passou... E recomeça. Com tantas outras pessoas.
   O que é segurança? Tu te sentes seguro? Todos os dias antes de sair de casa, alguém leva um pouco de ti; todos os dias, enquanto tu sai, alguém fica, alguém não volta. Final do dia, cansado, tu retornas para tua casa, deita em tua cama fofinha e pensa "amanhã vai ser tudo igual"... Rotina também é tortura. Não saber quem se é também é sofrimento. Desejar uma fuga para poder respirar também é desespero.
   Os pedidos de ajuda estão em todos os lugares. Só percebe quem também sente, Só ajuda quem estava no lugar certo...
   E desse medo insuperável de perdermos nossas liberdades, o que devemos fazer com ele? O que dói tanto em ti que te sufoca? Qual é a última faísca que faz tu não desistir, todos os dias, de todos os abusos que tu te submetes?

   Silêncio também é agressão.


quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Welcome, stranger.

Li em algum lugar, certa vez, que podemos quebrar nosso coração em quantos pedaços forem, a vida não pára para que possamos consertar. O tempo passa rápido demais e seguir em frente nem sempre é uma decisão própria. Pode até ser um chavão, mas tem tanta verdade nessas palavras quanto calmaria em água de poço.
Um dia a gente acorda e a cama está vazia, o silêncio mastiga as paredes e a sujeira se arrasta pelo chão. A pia entope, o banheiro se imunda e as janelas engorduram. Mesclar a dor com o respirar nem sempre é uma opção.
O espelho reflete um rosto velho demais, cansado demais, triste demais. Neste momento, alguma coisa dentro de si questiona: "O que eu fiz comigo?". Nós choramos sem saber o porquê, mas faz sentido de alguma forma. O ano passou rápido demais.

"Nós somos o que fica depois disso. Nós somos a ressaca que não passa."

Feliz ano novo para quem não tem medo do tombo.


quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Ressoa em mim teus sons

Todas as músicas que ouvi sozinha nesses últimos dez anos pensando nele começaram a tocar... E quem as colocou para ouvirmos foi ele próprio. Conversávamos sobre tudo naquele momento: sobre a formação e dissolução de bandas, sobre o que aquela melodia representava para nós, sobre...
Ele estava ali, na minha frente, depois de tanto tempo querendo estar na frente dele. Todas as sensações que eu acreditei que sentiria naquela situação, eu realmente as estava sentindo. Ele escolheu uma música aleatória para ouvirmos e eu só conseguia pensar "eu adoro essa música e eu amo esse homem". Era como se eu tivesse esperado a vida toda para estar ali, dividindo aquele momento com ele (se bem que dez anos de espera podem significar quase uma vida toda...).
Estávamos na cozinha: eu lavava a louça e ele enxugava. Era como se estivéssemos presos àquele momento, tão simples e tão complexamente significativo...
E eu encostei meu rosto no peito dele e dancei com ele sem ele saber.



I'll take you over if you let me.

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Ausência

De repente tudo e de repente nada. Não entendo o motivo desse Sol lá fora. Desses sorrisos que pessoas lustras de suor conseguem dar enquanto engolem a gordura hidrogenada dos sorvetes de chocolate. Eu aqui: do lado de dentro, olhando para fora, atrás do vidro da janela.
Quando me chamam, eu já não respondo. Queria que as pessoas se acostumassem com minha ausência, assim como eu me acostumei. Fisicamente, talvez, eu ainda exista... Acho que ainda existo, sim, porque ainda sinto um breve calor em abraços, um remorso eterno por ser quem eu era enquanto existia. Mas apenas (e brevemente) no plano tátil, afinal, como explicar para as pessoas que tua única vontade é a de ficar deitada, sem fazer nada, pelo resto da vida? Como explicar - e elas entenderem - que isso não é preguiça, mas uma desistência de sentir, de pensar, de mim (...)?
Já é a quarta xícara de café que despejo pelo ralo sem beber um gole. Esfriou. Ninguém gosta de café frio. Ninguém gosta de pessoas doentes. A doença dos outros te consome, mostra o quão frágil todos somos, o quanto nos detestamos de verdade.
Todos os espelhos da casa, da faculdade, do banheiro do ônibus (...), todos me mostram uma pessoa que eu não sou. Ou que sou, mas que já há tempos não reconheço. Olhar para si e perceber que todas as cicatrizes que carrega o corpo, as marcas de acne no rosto, os talhos ainda não cicatrizados (...), tudo pertence a ti sem que se queira ser o dono de tal fardo. E quando se adentra o olhar no fundo das próprias pupilas, impossível não enxergar as ranhuras que esculpiram naquela coisa que chamamos de "alma" - ou que autorizamos que esculpissem em nós.
Arrancar pessoas de dentro é natural ao ciclo, Dr.. O problema maior não é o assassinato, mas o que se faz com os restos. Em mim carrego todo o odor típico e fétido da podridão do decomposto, moradia aos vermes. E são tantos que já caminho tão pesada pelas ruas exatamente por não conseguir mais encontrar o que outrora busquei por independência.



Tudo é um ciclo. Tudo funciona dessa forma. De repente tudo e de repente nada.