terça-feira, 19 de abril de 2016

Looking for angels

Quando as fibras rasgam e os ossos são mastigados, o que sobra, Gael? A pureza roubada da criança que ainda anda e afoga-se entre os litros espalhados de sangue no piso branco. O rejunte para sempre manchado. As dores dos gritos que ainda clamam por socorro. Às vezes escapa um murmúrio implorando piedade. Ninguém sonha os nossos sonhos, Gael. Só quem acorda sabe o quanto arde abrir o olho, o quão silencioso é o grito do amanhecer. A pele que jamais mudará de cor. A íris eternamente vazada. Eternamente. A barriga que nunca cresceu. A boca que não consegue mais. Pois se Alice já não se importa em não ser compreendida, acabaram-se os questionamentos e pronto.
Se olhar no espelho por quê? Comer para quê? Tentar conversar com qual propósito? Os rostos desfigurados daqueles que julgam. Julgam por quê? Gael, por quê as pessoas me julgam? Onde está o verdadeiro terror em nunca parar de doer? Uma hora a gente acostuma e nenhuma cicatriz vai ser mais profunda do que a existência do ser. Aquela única que roubou Alice do mundo de ser menina. Sempre quis ser menina. Fingir que talvez algo pudesse ser bom, mas. E entre os dedos sujos das repugnâncias que sua garganta nunca cuspiu, a imagem de si que nunca conseguiu ter. A vergonha de simplesmente nunca ter conseguido ver. Gael, e se Alice tombasse?


domingo, 27 de março de 2016

Al-furriâ

De repente, os chicotes pararam de cantar agudo na carne da menina. Pararam. Sem ela perceber. Por mais que, imaginariamente, ela ainda sinta os estalidos, e as feridas sigam abertas brotando pus e sangue, a alforria chegou. Chegou sem ela se dar por conta e, finalmente, a menina chorou por estar livre dos grilhões em que se metera. Chorou também pelas farpas que tentara arrancar e não alcançou. Sentiu com a ponta dos dedos todos os sulcos que a pele rasgada formou, igual cordilheira, no íntimo da sua alma.
É machucando o couro que ele fica rijo, forçando o limite das articulações que elas se tornam maleáveis, reiterando os machucados que se aprende que eles já nem doem tanto assim... Mas, subitamente, a menina percebeu que estava no chão. Que depois de tanto ser jogada para cima e cair, as quedas cederam o solo e já não conseguia mais olhar para o que era bonito, se é que existira, algum dia, algo que fosse. O ato de respirar tornara-se sistemático e cada vez mais escasso. A menina perdera a fala, mas a sua cabeça gritava incessantemente para que parasse, para que não tentasse mais, que já era hora de. Que não.



O Sol, que cegava os olhos e maltratava a pele da menina, se escondeu atrás das asas daquele anjo que, por muitas e muitas vezes, voltava para lhe mostrar que a esperança é tão verde, viva e brilhante quanto os olhos dele. Dessa última vez, foram as próprias asas deste anjo que envolveram a criança e a carregou para um lugar seguro, com sombras e frescor, para que todas as chagas sumissem. O sangue foi enxugado pela terra para que, dali, pudesse brotar o único sentimento de proteção que já sentira, um manto incondicional de paz e descanso. Todos os dias, a menina acorda e percebe que as cicatrizes seguem ali (e ali permanecerão), mas que estão fechando e já não há mal cheiro, podridão, asquerosidade. Incrivelmente, ao que tudo indica, a menina ainda vai conseguir se olhar no reflexo do rio e, com vestes brancas, vai se sentir linda e plena, pois o anjo nunca a abandonou.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

True Blood

A lâmina cega passeia pela carne fresca. Uma, duas, três, dez vezes. As primeiras gotas rubras surgem e se faz o espetáculo. A paz inexplicável de respirar, finalmente. A ardência da ferida aberta, a dificuldade de andar, as dores todas evaporadas pelos segundos seguintes. Nada é mais satisfatório do que um corte. Por uma fração de tempo, aquele sentimento de impotência, de dor ou insignificância passa e nada mais existe. É meu nirvana.
As pessoas me julgam, me xingam, imploram para que eu não faça de novo. Como se fosse um atentado eu me rasgar a pele. Só porque a pele é visível... Se vissem como está minha alma, o que fizeram comigo, o que seguem fazendo... Meu interior em chamas, rios de pus que fervem em silêncio. Um corte é só um corte.


sábado, 2 de janeiro de 2016

(Nem tão) Feliz ano novo!

Tinha o costume de escrever textos positivos antes do ano acabar. Fiz, inclusive, promessa de que nunca mais escreveria algo negativo neste sítio... Teria sido uma bela ironia se eu realmente não tivesse tentado duramente cumprir esse algo impossível.
Neste ano de 2015, escrevi menos do que eu gostaria aqui no blog. Um dos motivos foi a minha própria frustração em perceber que todas as minhas notas poéticas e a romantização dos meus problemas simplesmente sumiram da minha cabeça e, agora, minha forma de escrever acabou se transformando em algo cru, direto, feio, resumido a uma folha simples de um diário que eu sempre me envergonhei de manter.
Comecei o ano de 2015 almejando muita coisa boa e com um foco impressionante, mas em menos de um mês eu levei o meu primeiro nocaute. Não sei exatamente como conseguir levantar. Nego-me a proclamar uma lista de agradecimentos aos que me ajudaram a seguir em frente pelo simples motivo de que eu sou o problema nos meus problemas. Sei que tenho muitos amigos e que eles gostam e se importam comigo, mas eu aprendi com a vida que tudo é efêmero: nada jamais vai permanecer para sempre. Não é que eu não me importe com quem se importa comigo, eu apenas sei que em algum momento eu vou deixar de importar e, de repente, tudo aquilo que estava muito próximo e parecia ser tão importante passa a ser distante, nada além de uma memória.
Deste ano que passou, eu assumi que tenho vergonha de mim. Que não me orgulho de quem eu sou. Que não sei lidar com quem eu sou e que fujo disso o tempo inteiro. E quando começou o ano novo, pela primeira vez em vinte e quatro anos, eu não estava feliz e almejando realizações. Pela primeira vez, eu me vi mais distante ainda de todo esse mundo que eu carrego como um fardo nos meus ombros e que estou cada vez mais cansada de carregar. Percebi que estou entupida de perguntas e que não sei responder nenhuma mais. Que não sei como ir adiante, como fechar buracos, que já foi raspada a última colherada de ânimo do pote para conseguir levantar da cama, respirar e começar o dia. Todos os dias.
Certo dia me perguntaram o que eu diria a mim mesma no início do ano passado se eu pudesse me dar um recado após já ter vivido tudo o que vivi. "Desiste agora" foi o que pensei. Talvez tivesse doído menos. Talvez eu tivesse um pouquinho mais de...
2016 deverá ser um ano maravilhoso se depender dos desejos escritos nas redes sociais. Interessante que em nenhum destes desejos eu me encontrei. Nenhum deles fez sentido. Foi então que caiu a ficha: a pouca luz que eu já tinha, ela está quase apagando.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Repetições

Sempre julguei minha mãe pela atitude de perdoar traições. Recriminava ela por ser fraca e não saber dar um basta a cada dilaceração da carne, da alma, de não conseguir fechar as torneiras das lágrimas. Sempre chorou escondido, pra não machucar quem a visse sofrendo.
Na verdade, passei grande parte da minha vida admirando a força que ela tem de se reconstruir dessas quedas horríveis. Sempre escondida atrás de bulas e pílulas coloridas, mas sempre erguida.
Diz-se que quando não se enfrenta um problema, a fuga acaba trazendo o problema novamente em forma de repetição e que assim se vai, em loop, fazendo tudo de novo várias e várias vezes. Mas se a gente fica, será que é por que somos fortes ou por que somos fracos e não conseguimos fugir?
Aquela vida perfeita escorrendo entre dedos, junto ao sangue que escorre pelas fendas dos pulsos. De repente, a gente percebe que tudo o que condenamos nossos pais acontece exatamente conosco. Ele fez comigo exatamente o que o pai dele fez com a mãe dele. E eu faço com ele exatamente a mesma coisa que minha mãe faz com meu pai. Ele odeia o pai dele pelas atitudes estas, e eu odeio minha mãe por ser tão fraca e burra a ponto de não conseguir se livrar do que dói nela.
Enfio o dedo em riste no nariz de mamãe; ao mesmo tempo, sento e choro, sem forças, por não saber como escapar dessa enxurrada de lama e piche que me queima e me afunda.
Mais uma vez, tento ressuscitar através de uma faca que me corta e me salpica em encarnado a pele branca. Mais uma vez, todas as chagas se reabrem e eu não sei mais se quero conseguir.
O que é que tem de tão ruim em mim?