segunda-feira, 15 de junho de 2015

Simples

Danilo foi embora e, dessa vez, eu não me importei. Achei que doeria, me magoaria... Mas não senti nada. Ele foi embora e eu me levantei da cadeira para pegar um copo d'água. Encontrei um pote de doce de leite e comi de colher. Como é gostoso doce de leite!
Já doeu tanto. Tantas outras vezes. Ele foi embora tantas outras...
Não é um sentimento de liberdade e não sei se vou ser compreensível aqui. Ele sempre vai ser a pessoa mais importante da minha vida. Ele sempre vai. Por quê? Porque ele é inalcançável. Coloquei ele em cima de um altar e percebi o quão lindo ele fica lá. E tão lindo ele ficou que é lá que eu quero que ele fique.
Ele foi embora, mas e daí? Quem não vai? Eu já fui embora. Já fui embora tantas vezes mais. E acabei voltando e partindo tantas vezes eu quis. É assim que vai ser.
As músicas vão vir e ele vai continuar. Ele vai partir e eu vou continuar. Ele vai ser sempre a pessoa mais importante. Porque eu quero que seja. Porque eu apaguei todos os defeitos dele. Porque a família dele é a minha.
Eu sei que quando ele vir uma lagartixa, ele vai espichar o "érre" pra falar que viu. E que vai lembrar de mim, tão branca quanto ela. Os olhos azuis e os olhos verdes.
Danilo foi embora e eu finalmente consegui respirar. Dormir.

sábado, 25 de abril de 2015

Strike!

A semana se preenchia daqueles dias recheados de névoa. Era quinta-feira - o final da semana se aproximava -, mas a sensação era de que iniciava-se, com um certo pesar triste, a jornada dos dias úteis. O peso da rotina de acordar-trabalhar-estudar-dormir cada vez mais denso. O desejo íntimo era apenas de, ao final do dia, permanecer naquele silêncio só nosso.
Não era tão frio quanto parecia ser e eu realmente não fazia ideia para onde ele resolvera me levar. A noite começou naquele momento em um calhamaço de surpresas recheadas de boas sensações. Ele conhece meus gostos e trejeitos a ponto de, após tantas risadas na pizzaria, me fazer cruzar uma porta de vidro giratória.
Lá estávamos, Johnny e June, jogando bolas de boliche em direção aos pinos. Um contra o outro. A rivalidade deliciosa confundindo-se com a partilha da alegria a cada acerto. Fazíamos parte do mesmo time.



Estar em um relacionamento é simplesmente perceber que os presentes ganham-se todos os dias, em cada sorriso, gesto e beijo, e não em datas comemorativas clichês. Surpresas não são obrigações. Sentir não é digno de nota fiscal. 
Aquelas cores todas que eu aprendi a ver com ele? Ainda as enxergo e, inacreditavelmente, ainda existem matizes novas. 

domingo, 29 de março de 2015

Interrupção

Adam estava longe, mas algo em suas pintas de dálmata sabiam exatamente que tudo o que eu queria era deitar no chão ao lado dele e ficar rolando, brincando, criança.
Quanto uma dor pode te mudar? Quanto tu deixa de realizar por se preocupar?



Eu liguei pra ele tão pouco tempo antes de. e ele tinha me atendido feliz. "Oi, filha!". Sempre fui a filha, mesmo nunca. Ainda, tantos anos mais cedo e aquele "Oi, filha. Ele não tá, mas feliz aniversário pra você, viu?". E, hoje, tão longe da data em que deixou ele eternamente sentado naquele sofá que eu nunca sentei, ...  hoje eu aceitei em mim a falta que ele me faz, sem nunca ter sido meu pai.
Adam deve ter sofrido. Ela, "Oi, filha!", me disse que sentia a presença dele na casa. "É como se ele estivesse ali, resmungando na frente da tv, 'Mulher! Vem rápido ver isso!' impaciente, com o cigarro e o carinho. Às vezes eu olho e não acredito que ele não tá mais ali."
Falta tempo até agosto, mas já se passaram quase quatro anos e só agora eu consegui aceitar essa dor que é tanto tua quanto minha. Essa família que nunca foi minha. Que sempre me tratou como se fosse.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Consertar

Quando percebi, ela já havia juntado todos os pedaços que quebrei, todas as roupas que já não serviam, todas as dores de cabeça que espalhara pela cabeceira da cama, e, cuidadosamente, havia arrumado tudo dentro de uma mala. Ela foi silenciosa - tinha essa mania de não querer incomodar, não querer se fazer notar.

Foi no momento em que ela me sorriu com um breve ódio que pude entender o que tinha dentro da mala e que ela não voltaria para buscar os sorrisos que deixara pendurados no varal da minha memória. A porta estava aberta e ela já havia atravessado o primeiro pé para fora. Por algum questionável motivo, o outro pé permanecia dentro do apartamento. Talvez ela suspirasse a dor de soltar os últimos fios; deixar de ser boneco de madeira para se transformar em mulher.
Tive medo. Ela estava decidida a ir embora e jamais olharia para trás. Como uma única reação, gritei. Gritei para que ela ficasse. Devagar, ela voltou seu rosto magro para mim, que, inerte, observava aquele único momento sem me dar por conta no que antecedera tudo. Por que ela tinha olheiras? Por que sua pele mostrava  tantos ossos? Por que tantas cicatrizes no fundo das pupilas? A face dela já não esboçava nenhuma reação e foi então que percebi que as mãos dela sangravam os cacos de vidro que ela mastigava.
A mala, que estava na rua, foi puxada para quase dentro do apartamento. Um pé seguiu do lado de fora e o outro do lado de dentro. Cansada, ela sentou em cima da bagagem e chorou. Chorou de uma forma tão dolorida toda a insuficiência dos passos que fizera até ali e eu, tão distante, não pude sequer limpar as lágrimas que lhe escorriam tão ligeiras quanto tempestade. As pessoas quebram.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

I walk the line

Era sempre aquele encontro e desencontro. Eles se gostavam, mas tinham medo. A vida estampara no rosto de ambos cicatrizes fundas, grossas e terrivelmente assustadoras. Cicatrizes que só quem se enxerga no espelho é capaz de ver. O tempo de um era diferente do tempo do outro, embora tivessem se cruzado naquele horário.

"Tu é a pessoa certa na hora errada."



Johnny Cash era um cara incrível. Ele carregava uma bagagem histórica emocional absurda. Se ele sabia lidar com isso da forma correta? Não sei. Não convivi com ele. Mas eu sei que ele fazia música sobre isso. Música de tons tristes, intensos, impactantes e confortantes, até certo ponto. Músicas que abraçaram o mundo todo e sem um público alvo definido. Cash tinha a família dele, os amigos dele, os problemas dele. Ele tinha um violão, um timbre único e outras coisas. Certamente nenhuma tiete quis saber sobre como ele se sentia: ele já estava em um pedestal.
No meio de um turbilhão de acontecimentos, ele conheceu, ao vivo e a cores, em pele e calor, June Carter. June, da mesma forma, também carregava em si alguns cortes abertos que a mídia espalhou sem, possivelmente, se importar com aquilo que realmente não transparecia. Eles eram as pessoas certas nos seus momentos errados. Eles se gostavam e se queriam bem, mas tinha algo de mais oculto na situação toda que impossibilitava eles de. O timing não era aquele. E entre tantas e tantas idas e vindas, eles poderiam ter se perdido.

"Eu tenho medo que a gente se perca, porque as pessoas se perdem muito por aí."

Quando Johnny Cash surtou, em decorrência do vício dos comprimidos (ou melhor, em busca de uma tentativa auto-destrutiva de fuga dos tantos tombos que a vida proporcionara), ela esteve lá. E ela, June, foi a melhor mulher que ela poderia ter sido. Não era por quem ele representava, mas por quem ele era. E por mais que ela nutrisse dúvidas e incertezas com relação a ele, ela não abandonou quando pôde. Ela ficou com ele. Ajudou e cuidou dele. Mostrou que ele poderia ser amado, mesmo que ele não acreditasse que fosse possível. Não daquela forma.

Sobre essa história toda, a frase (chavão) que eu mais gosto é aquela "Essa manhã, com ela, tomando café-da-manhã", quando pediram para ele descrever como o paraíso lhe parecia.

Observação final: Mesmo não tendo sido exatamente por isso, mas se tu tiveres um livro pequeno, de capa vermelha e título escrito em dourado, com uma dedicatória singela com uma música do Johnny Cash, é porque...

"Tu é incrível. Tão incrível quanto única. E pensar que eu tive que vir de tão longe para te conhecer por acidente e agora não quero mais desconhecer. Tu me faz querer ser o melhor que eu posso ser. E eu te amo por isso."