quarta-feira, 30 de maio de 2012

Ele me olhava com olhos tristes; o sorriso escondido como quem se desculpa por ter se apaixonado. Segurou forte minha mão e encostou meu rosto em seu ombro. A íris parda analisando tudo, menos meu mar.
Foi embora igual quem foge, sem dizer palavra alguma. Sem nem, ao menos, virar a face para trás, para ver o que abandonava. Não nos beijamos. Não nos tocamos. Rasgava, simplesmente, a última carta - coringa - que tinha nas mãos.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Éramos seis (anos)


Ao cruzar aquela porta, deparei-me com o mundo que tanto quis fazer parte. Reconheci, naquele apartamento, a vida que eu quero, ainda, construir para mim. Apaixonei-me por uma estante que percorria toda a parede principal da sala-de-estar, recheada de livros. Livros! Coloridos, velhos, novos, com cheiro de sabedoria, aguardando olhos sedentos. Livros de regras gramaticais, de literatura, de coleção; Goethe e Fausto, Cervantes e Dom Quixote, Machado de Assis e Dom Casmurro, Érico Veríssimo com seu Tempo e seu Vento: todos olhando para mim, questionando a minha história, diferente da que cada um deles porta.
Nas paredes brancas, negras letras formando frases e personalidades. Ella Fitzgerald canta - muda e emoldurada - para os outros quadrinhos de casais apaixonados - em poses congeladas e dançantes. Cálices de vinho com rastros da noite anterior, pérolas de brincos no chão, bitucas de cigarro no cinzeiro: a liberdade (in)feliz de uma vida sem restrições.

E junto com aquele tão conhecido perfume, veio o enlace dos braços dele pela minha cintura, e o beijo, e a língua, e o sexo, e o suor, e, finalmente, novos cigarros. Uma velha lembrança completamente nova.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Cigana

Nestas beiras de vinte e um anos, a vida me fez engolir as máximas que, para os outros, ela lentamente ensina. As cicatrizes vão além de marcas que enfeitam a pele, são gravações em retinas oculares que desenvolvem uma valsa graciosa entre os diversos corpos, as diversas mãos, a união e o compartilhamento de sonhos, copos, suores, prazeres.
Me descobri fumaça, assim, tão nova. Antes eu era fogo e lambia em labaredas as desenvoltas linhas que teu corpo tatuado e cru se apresentou como lar. A presença, em cinzas, deixou marcada a testa de tantos outros. Me descobri fumaça e já não posso querer virar matéria. É assim que me tornei: leve, fácil, sem deixar rastros, cigana.

Eu quero um vento para levantar a saia da mulata; eu quero um samba para que não desanime o ritmo da festança. A vida funciona para quem quer viver. Eu? Eu sou fumaça na vida de tantos, na vida de muitos, na vida de todos.

quinta-feira, 29 de março de 2012

As únicas flores

Onde está o homem que preencheu madrugadas de julho por quais minha vida acompanhou, mesmo em distância? As músicas e gargalhadas que apenas o silêncio lembra estão escondidas por alguma gaveta.
As pétalas de rosas que me deste murcharam, embora continuem vivas, vermelhas e recheadas de surpresas nas páginas do caderno que emprestamos, unidos, nossa caligrafia para melhor explicar a sucessão dos banhos de chuva em madrugadas frias ou de carinhos em noites não dormidas.

Procuro por um homem em especial, toda noite, na minha cama. Sumiram os olhos pardos e os lábios tão bem desenhados - os quais esperei por toda a vida.
Se fui abandonada? Se afirmo, logo, que minhas inseguranças me aproximaram de meus medos, já consegues imaginar o que veio a se passar com o mundo ao meu redor...
Eu disse adeus àquele que me recolheu do lixo.

sábado, 24 de março de 2012

"Vai embora e os momentos bons se foram"

Aguardo ansiosamente as nuvens carregadas e escuras. Achei que o sol era bom e que o sal da praia na minha pele iria me fazer sorrir com mais intensidade. Ousei crer que o caramelo lambuzado nos lábios cor de amora me trariam uma descoberta doce, única e desejosa de reiterações. Agora, nem mais a nicotina exclui esse enjôo de minha boca...
Dessa rejeição, só sobraram os meus eternos olhos vazados, banhados em sangue, trazidos pelas repetidas lágrimas em meio à minha pele ressecada pelo verão. Volto, portanto, à timidez incomparável das queimaduras dos flocos de neve que me banham o corpo: beijos delicados e efêmeros, como tudo é e sempre foi.
Das dores, carrego apenas a força de suportar indiferenças. Nunca nada fez sentido e não vejo motivo para descobrir tal ponto de interrogação; só, dessa forma, posso perseguir a rotina e continuar na inércia do que tantos apelidam, com alegria inexplicável, de "vida".