sábado, 26 de outubro de 2013

Bolero

- O que te entristece?
- A desigualdade social me entristece.

O mundo estava aos berros por toda a parte: eram os protestos na frente da prefeitura, eram os estandes sendo montados para a Feira do Livro e também era o pôr-do-Sol tímido nesse hediondo começo de horário de verão... Muita rotina, preocupações, peixes e mídia estavam ali, e, ao mesmo tempo, nada tinha relevância. Naquele momento, selecionamos o que queríamos ver, mesmo com todos os barulhos que a cidade faz, todos os dias, incansavelmente.
(E se te vale um segredo, conto que te vi partindo, de costas, cabeça alta...) Só depois, pisei nos degraus descendentes que me levaram ao sentido oposto.

Ontem foi a última vez que te vi. E de ontem para hoje, parece que já se passaram anos...
Ontem, tu não me viu chorando. Mas os outros viram. Os olhos curiosos, de faces estranhas, no vagão do trem, depositados em cada gotinha que escorreu. As paredes do meu quarto fizeram silêncio para melhor acolher a saudade. Cada gotinha contendo cada segundo do teu sorriso que só eu vi.



"Para nós, todo o amor do mundo; para eles, o outro lado."

- Estou tentando ser clara, mas tem coisas que só fazem sentido na minha cabeça.
- É onde importa.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

Blowing in the wind

Mesmo de olhos fechados, foi possível ver o sorriso contido e espontâneo que me ofereceste. E ao escancarar minhas pálpebras, lá estavam todos os traços de teu rosto masculino a depositar serenidade à minha fronte. O silêncio me embalou e adormeci enquanto Dylan cantava nos meus sonhos, explicando toda a serenidade de um coração palpitante...

"You raise up your head
And you ask 'Is this where it is?'"

Do outro lado destas letras, alguém trouxe memórias que abraçam. De repente, alguém veio e tatuou minha pele com desenhos e cores que só eu e tu poderemos enxergar. E lá está, novamente, teu sorriso tímido e fantástico a prestar reverências aos meus olhos de Capitu.
Quanto a todos os 'não-dizeres' que guardei, o silêncio singelo de cada ato foram escancaradamente gritantes... Seria possível prendermos um momento em uma garrafinha de Coca-Cola, igual àquelas com miniaturas de embarcações que são vendidas na praia? 

Escondidos em minhas águas, nadam teus peixes.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Escorregar

Talvez ela não tivesse me atraído tanto se não estivesse nua... Bem possível que eu não teria dado à ela a devida atenção se não fosse seis horas da manhã de um dos invernos mais rigorosos e chuvosos que tive o (des)prazer de vivenciar.
E se não fosse eu quem estivesse passando por aquela ponte? Se fosse outro? Será que ela estaria viva ainda? Será que alguém teria parado? Tu pararias?

Saí de casa às cinco horas da manhã. A noite me engolia, achatava... Sozinho, no carro, enojado com a dança do limpador de pára-brisas, meus pensamentos se erguiam como um filme em preto e branco, ao som de John Coltrane, que calmamente desenhava sabores aos meus ouvidos. A aliança pesando minha mão esquerda, como uma necrose que estava por vir.

Curva para a esquerda. Curva para a direita. Reta. Curva para a direita de novo.

Ponte.


Uma menina, moça, mulher...! A chuva a lhe desabar na pele, nas sardas; o frio a triturar a mandíbula. Parei e desci do carro. Nem sabia o que fazia, mas fui correndo até ela. Mirava longe, como se minha presença não fosse nada além de uma nova gota de água na testa.
- O que foi? O que fazes?
Não me respondeu. Tremia. Ria. Chorava. Devagar, foi sentando na borda do que a separava entre o chão e o nada. Meu blazer foi parar em suas costas e fiquei a observá-la, atônito.
- Não quero mais isso. Quero o que vem depois!
- O que vem depois? - Questionei.
- Paz!
- E como sabes?
- Não sei.
Silêncio.
- E se eu me deixasse escorregar lá para baixo?
- Eu te seguraria.
- Por quê?
- Por que não?
Silêncio.
- Vou cair. - Levantou os braços, fechou os olhos, levantou as pernas... Perdia seu ponto de equilíbrio sobre aquela ponte e estavas para sumir... Segurei suas mãos geladas. A partir disto, a rapariga saiu do transe de "despedida" e pôs-se a chorar descontroladamente. Devagar, fui tirando-a daquela situação perigosa e ela entrou no meu carro.
Girei a chave na ignição e fui retomando a viagem.

Curva para a direita, curva para a esquerda, reta, pedágio, curva...

Jamais soube o motivo que a levou a desejar tão severamente um fim. Nem preciso saber...
Hoje ela é minha esposa e temos dois lindos filhos.

domingo, 21 de julho de 2013

Velha cantiga antiga

Procurei, no meio da noite, teu peito para usar como travesseiro, e também procurei teus dedos para arrancar dos meus olhos as lágrimas ardidas. Não te encontrando, avistei-te distante... Longe o suficiente para ter de aceitar o quão perdida me encontro.

É estúpido o medo que temos de morrermos.. Não apenas da morte, bruta e simplesmente, mas sim daquela que nos oferece a visão de solidão. Morrer, nós morremos cada dia um pouquinho: com um cigarro a mais (e um câncer de pulmão), uma fritura a mais (e veias entupidas), uma dose a mais (e a cirrose), uma respiração a mais (e o envenenamento)...
Morrendo, nos sentimos abandonados. Como de fato estamos! Toda a dor que emana dos meus olhos resseca o coração que ainda bate. Todo o calor que minha pele precisa, transforma-se em pedra até que reconheças teu toque.

Procurei, no meio da noite, teus olhos pardos a me cantarem cantigas de ninar. Não existem monstros embaixo da cama, menina! Não existem monstros... mas eu os enxergo. Eles me dizem que estão lá!

sexta-feira, 12 de julho de 2013

(des)-re-encontro

Dividem-se nossas esperanças por uma delicada linha tracejada. Dizem que não devemos ultrapassá-la no momento em que o traço é existente. Jamais! Mas... Como saber? Não há, propriamente, uma fórmula que indique o momento correto de mergulharmos nas águas convidativas do mundo escondido nos suspiros e olhos fechados.



Se há um segredo para alcançar teu sorriso, quero que me expliques como unir meu interesse em sentir cada gota de ti! (Os alfinetes na pele clara.) Se meus olhos vazados sugarem tuas lágrimas, mesmo que por poucos minutos, já dou-me por satisfeita.
Sempre será um arrepio invisível, palavras mudas, presenças desencontradas. Te carregarei além dos sonhos e expectativas, por entre as fendas das linhas tracejadas...

E se tu deres um passo para fora de ti, espero-te dentro de mim.