domingo, 23 de setembro de 2012

A partir de.

Era satisfatoriamente frio para nós dois.
(Uma bela forma de iniciar uma história...)
O sorriso dele projetado na minha retina igual fotografia antiga.
Cheiro de calor de pele, perfume, felicidade.
Lençóis brancos.

A chuva a escorrer pelo vidro,
o Sol fraco e tímido atravessando as cortinas, iluminando minha íris.
A presença dele regulando o tamanho de minhas pupilas.
Olhos verdes, olhos azuis.

Aprendeu a interpretar as curvas dos meus lábios, a dançar com minha língua, a tremer meu corpo.
Melodiosamente, as respirações.
A tarde passando pelos nossos cabelos, por entre os dedos.

A água a arrepiar teus pêlos.
Meu riso tão atento às tuas histórias.
A memória gravando uma película para se assistir depois, inúmeras e inúmeras vezes.

Quero que tu fique na minha vida tanto quanto tu quiser ficar!

sábado, 25 de agosto de 2012

Queda livre.

"Eu queria ter uma câmera escondida no exato lugar onde as quedas ocorrem para ver como eles fazem. Eu queria ter os últimos minutos deles, tentar entender o que passa pelos olhos quando percebem que tudo acabou. De verdade. Para sempre. Tudo, menos a vida. O último momento. O final. Quando, pela primeira e última vez, não há mais chão. Quando não existe mais volta. Quando a queda apenas começou. Eu queria descobrir se, nesse último respiro antes do salto, ele se arrependeu. Eu queria saber se foi falta ou lucidez demais."



CANEPPELE, Ismael. "Os Famosos e Os Duendes da Morte". São Paulo: Iluminuras, 2010.


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Laio

Abarrotando lençóis, acordou inquieta. Laio fumava em silêncio, jogando a fumaça para o fundo do teto. A tábua do chão, já chamuscada das cinzas, engolia-se em profunda negritude enquanto o vento espancava a janela.
- O que tu tens? Pára de te mexer, guria!
- Já é dia?
- O dia tem 24 horas, logo, qualquer horário faz parte do dia. É sempre dia!
- Sim... mas, tem Sol?
- O Sol tá sempre no mesmo lugar, pequena. 
- Pára de ser babaca, por favor?
Tascou-lhe um beijo. Como se um único beijo frio fosse resolver os problemas que começavam a surgir. Lavínia acabou por aceitar os beiços úmidos do rapaz, a mão escorregando por entre as coxas.
- Tenho que ir... - disse, num pulo.
- São dez para as quatro.. Fica!
- Vou fazer um café. Quer?
- Vou abrir a janela.
Na ponta dos pés pequenos, saltitante, foi ao banheiro lavar o rosto. Voltou e vestiu a camisa do moço para, em seguida, já encontrar-se na cozinha esperando a água chiar na chaleira para passar o café. Os pensamentos flutuando como o ar gelado a lhe eriçar os pêlos.

Gostava ou não gostava? Fugiria ou voltaria para a cama? Continuaria a ter pesadelos ao lado dele ou passaria a tê-los sozinha? Que água demorada... E se voltasse para sentar com ele, fumar um cigarro, e expurgar o que sentia? E se nunca falasse? E se ele lhe risse? E se... Bom, o cigarro podia já fumar agora. Respira. Acende. Traga. Sopra. Respira. Apoia o pulso tatuado na beira da cadeira. Respira. Traga. Sopra. Ri. Que situação tosca... Se abortasse seria tão mais fácil...
A água começa a chiar e o cheiro de cafeína se espalha pelos cômodos da casa. Duas xícaras. Vermelha pra ela, verde pra ele. Com açúcar pra ela, sem açúcar pra ele. Era agora. Ou ia embora, ou voltava ao que (man)tinha.
E se... tentasse... mais... uma vez?....
A janela aberta e o vento a sacudir as cortinas.
- Laio?
Ninguém respondeu. Sentiu-se livre por não precisar falar nada ou ter de escolher situações conveniente.
Uma pancada na cabeça e.
-x-
Aparece a enfermeira. Dá-lhe mais uma dose de morfina.
- Calma, Lavínia... Queimadura é assim mesmo. Dói um pouco... Mas logo ficas boa.
- E Laio?
- Laio faleceu, querida... Laio faleceu.
- Como? Por quê?
- Ele botou fogo nas cortinas. Queimou a casa. Faz um mês.
- E meu filho?
- Do Laio, querida, não te sobrou nada. A não ser a vergonha de te olhar no espelho.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Vendaval

Toda vez que fecho as pálpebras - mesmo que, no simples exercício de piscar - são os teus olhos que, igual as estrelas da noite escura e limpa, me perseguem pelo infinito dos meus sufocos.

A rua está vazia e a única movimentação aparente é da iluminação fraca que pisca lá longe. Lâmpada esperando o momento certo para queimar de vez. O vento a zumbizar meus ouvidos; surdez a enlouquecer os pensamentos que eu não deveria ter. Sorriso murcho.
Janelas fechadas, mas audível o tilintar dos pequenos sinos dourados, com laços de fita mimosa azul anil - enfeite pendurado em um canto triste da cozinha. E quando a tontura chega, falta o ar e o desespero toma conta. Até parece que falta um cigarro, um chocolate, um abraço, um amor...
O vento chia, o olho pisca, a ponte cai.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Aviso Prévio


Querido,

Escrevo-te uma carta – sim, uma dessas para que tu saibas que sou eu mesma que escrevo – para dizer que vou morrer. Todos vamos. Um dia, todos morreremos; mas eu vou antes. E vou porque quero. Por quê? Ah, ando muito doente. Muito doente! Muito... A doença? Hmm... Uma doença boba, pequena... Dê o nome de gripe, se assim convir. Pare de rir! Vou morrer. Vou morrer de gripe. Vou incutir uma gripe em mim para poder morrer. Aliás, morrer é diferente de matar. E eu vou matar. A mim. Então é isso, vou me matar com gripe.
Se já pensas que sou doida, então jogue essa carta no fogo e espere as notícias nos jornais, a visita da polícia para investigação, a ligação do IML para o reconhecimento do corpo e a minha mãe chorando e te perguntando o porquê disso ter acontecido. Engraçado eu dizer “ter acontecido”, pois ainda respiro. (Obviamente respiro, senão seria impossível te escrever essas letras tortas). Bom, vamos ao que interessa:
Já pensaste em como seria morrer? Em como seria pegar um caco de vidro, cravar na carne delicada do pescoço e ir rasgando (igual como as moças das lojas de tecido fazem com cetim)? Nesse ponto, o sangue iria escorrer eufórico corpo abaixo, colorindo a pele que nunca teve cor alguma. As pernas iriam fraquejar e, perdendo as forças, se dobrar até estatelar a patela com o piso. TÁC. Um barulho morto de um morto que tomba. A cena parece apetitosa, belíssima, com direito a palmas e cortinas vermelhas tombando para o fim da música orquestral. Mas essa é a visão de espectador. A visão de quem sente deve ser muito melhor!
Convenhamos, amor, a dor da carne rasgada é ótima. A adrenalina sobe, falta ar, vêem-se estrelas. A pressão vai caindo e o coração palpitando forte. Todo aquele sangue molhando as vestes, os sonhos, deixando estagnada a vida que não se viveu. Lírico. Mais bonito do que morrer de gripe, tu não concordas? Não entendo porque passas as mãos pelos cabelos. Desiste dessa raiva que te engole. Eu já decidi e assim vai ser. Ou foi. 
Não importa os trapos que o suicida usa. Sempre tem quem depois o vista com o melhor terno, perfume, maquie, entupa de flores... Ah, por favor! Sem flores. Que mania bem feia. Por que diabo as flores? Sabe, meu príncipe, eu passei a vida a avisar-te que detesto flores e tu passaste a vida a dar-me as pequenas plantinhas. Uma vez, até te disse: “se é para matar algo, que seja algo útil! Mata uma perdiz e traz para o almoço”. E tu riste de mim. Passaste a rir de mim desde que me conhecera. Nunca trabalhei em circo, querido, e, mesmo assim, palhaços também são seres humanos, também têm sentimentos e sofrem. Nós, seres humanos, sofremos, sabias tu disso? Pois eu sabia. Eu soube desde o primeiro tapa que me deste. Amor, não te desesperes, não estou te confundindo! Sei muitíssimo bem que nunca ergueste a mão para minha sombra; mas tuas palavras, meu lindo, como tuas palavras me doeram.
Amei-te com tanta devoção... Ainda te amo, diga-se de passagem; mas não te suporto mais. Não te suporto. Sempre corri para tentar ser a melhor, a mais doce das esposas, a mãe que tu não tiveste, a amante que tu nunca pagaste, a cozinheira do melhor restaurante de Paris... E tu ousaste me humilhar em todos esses anos. Nunca fui competente o suficiente, mesmo dando o sangue para poder ficar aqui contigo, a te dar todos os sorrisos - que nunca pediste, nunca olhaste, nunca valoraste. É agora o momento, amor: libertei-te. Libertei-te desse peso que fui, em tantos anos, tentando te impressionar e falhando nos pequenos detalhes.
Lamento ter sujado a cozinha que tu pagaste com o suor do teu trabalho. Porém, preciso pontuar que eu bebia o vinho, mais uma noite, sozinha, pensando com qual das secretárias tu estaria derramando teu leite, e a garrafa escapou-me entre os dedos. Caiu. Quebrou. Fez-se mil pedaços. Faltava uma taça ainda. Desperdicei vinho. Desesperada, lambi tudo. Tudinho! Cortei os lábios... E foi mastigando os pequenos cacos de vidro que percebi que podia eu acabar com tua aflição. Vamos, meu docinho, sorria. Abra as janelas, chame a moça da limpeza. Ela vai entender. Dê a ela uma boa gorjeta (sabes que ela merece).
Meu amor, creio que a carta deva terminar por aqui. Tenho os remédios do psiquiatra na mão, o vinho eu já bebi, a ampola de ar está esperando mergulhar pela veia. Permita-me. Estou indo. Eu te amo. Amo-te como nunca me permiti amar ninguém. Agradeço-te. Agradeço-te. Amo-te.
Agora, sorria e respira! Respira, pois eu já não posso mais. Boa noite.