quarta-feira, 16 de maio de 2018

6 Balloons

Texto extraído do filme "6 Balloons" - um original Netflix.



Capítulo 1.
Você está em um cais. Já esteve aqui.
Escolha andar pelo cais.
Perceba o barco. Perceba as nuvens se formando... o vento forte... o mar oscilante. Escolha entrar no barco.
Agora segure-se... e nunca se solte.
[...]
Capítulo 2.
Você está no mesmo barco. Perceba que a água deteriorou o barco. 
Prometa que irá consertá-lo antes de viajar.
[...]
Capítulo 3.
Você voltou. Entra no mesmo barco.
Admita para si que não sabe conduzir esse barco.
Diga para si que é a única pessoa que pode conduzir esse barco. Agora desatraque e reme.
Você está no mesmo barco. Repare no motor. Teste o leme.
Você não pode conduzir... e não pode remar. E pensa que você... pode... se afogar.
[...]
Capítulo 5.
Não há barco. Não há motor. Não há remo.
Admita para si que só há você mesmo... e a água à sua volta.
Está afundando. Está se afogando. Está chegando ao fundo. 
[...]
Capítulo 6.
Há um barco no meio do oceano.
Diga para si que pode conduzir o barco. Mesmo após ele ter virado. Diga para si que ninguém irá notar. 
[...]
Capítulo 7.
Admita para si que você escolheu percorrer o cais. Admita que escolheu entrar no barco, mesmo sabendo que não podia conduzi-lo. Admita que viu a deterioração e não a consertou... que podia ter ficado em terra firme, mas, em vez disso... entrou no barco novamente.
Admita que nunca pediu ajuda, mesmo quando ofereceram.
E agora... liberte-se.
[...]
Capítulo 8.
Estamos no mesmo barco.
Você está no mesmo cais, entrou no mesmo barco. O barco está inundando.
Admita para si.
Perceba as nuvens se formando.
Está se afogando. Está chegando ao fundo.
... sabe conduzir esse barco. Está no mesmo cais.
Está afundando. Está afundando. Está afundando. Está chegando ao fundo. Está se afogando. Está afundando. Está afundando. Está se afogando. Você vai nadar. Está chegando ao fundo.
Você está nadando. Suba. Suba. Respire. Respire. 
[...]
Capítulo 10.
Sempre haverá um barco no fim do cais.
Mas diga a si mesmo que pode escolher se irá ou não embarcar.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Para sempre

   Se tudo na vida fizesse sentido, a lua não se esconderia no breu da noite nos dias que eu sinto saudade, nem eu nadaria em insônias quilométricas nas noites em que desejo sonhar contigo. Se tudo fizesse sentido na vida, nunca teríamos nos conhecido por acaso e eu não te amaria cada dia mais de maneira interminável.
   A fumaça que grita pelos buracos da máquina a vapor é sempre a minha imaginação te desejando cada vez mais perto. Os trilhos queimando o calor do encontro de nossas peles (brancas, branquinhas) igual à neve que cai do lado de fora da janela no outro lado do hemisfério. As pálpebras fechadas escondendo as cores da tua íris na imaginação tão sólida...
   Aqui estou eu, mil quilômetros de distância, sorrindo para os buracos da veneziana, te imaginando sorrindo também. As imperfeições que transformam na perfeição. Eu te amo desde a primeira vez que te vi. Nada vai mudar isso. Ninguém vai mudar isso.


domingo, 25 de março de 2018

Cinzas

   Eu respeito quem se ama. Respeito aqueles que conseguem olhar no espelho a própria imagem refletida e enxergar qualidades, beleza além da textura da pele, apaixonar-se por todas suas próprias atitudes. Respeito quem vai além das cicatrizes para recomeçar em todos os amanheceres.
   Honestamente, eu respeito com uma mescla de inveja. Eu já fui, mas eu não era. Alva. Eu me amava enquanto me destruía e agora que sou cinzas espalhadas já não compreendo como podia sentir. Não recordo com carinho dos corpos por onde me sujei, nem das lembranças que gostava de manter. Desconhecidos que nada significaram e contabilizaram números que nem sei mais contar. A pureza da minha tez eternamente manchada pela sujeira que só eu vejo. Todos os dias. O que eu fui. O inchaço do meu corpo advindo das minhas falhas. Morais. Físicas. Estruturais.
   E eu, com todas as minhas (im)perfeições superficiais, me deparo com essa qualquer que mantém um discurso tão falso quanto o amor próprio que insiste em mastigar nas colheradas de purpurina que usa para construir um mundo encantado de unicórnios e sereias. Este ser humano que finge estar satisfeita com traços corpóreos. Ninguém se importa com o que tu pensa. Plenitude vai além dos mantras que nos mantém a imaginação doentia.
   Aposto que tu, menina, se olha no espelho todas as manhãs e se vê grande e crescida, mas chora enquanto banha-se por não encontrar dentro de si o amor pela imagem e linguagem que constrói a espalha, porque a autoafirmação não nasce em espelhos, mas cresce do solo que queimou e deixou de ser fértil. Tu, rapariga, só terá capacidade de entender quando ouvir o som que vem abaixo dos teus pés tortos. A porcelana do teu cerne pode ser mantida por orações, mas a feiura de nossas almas nunca estarão limpas após um banho de chuva.


sábado, 24 de março de 2018

A volta de Gael

   Fazia tempo que Gael não se mostrava para Alice. Asas brancas e toda a pureza que uma alma bondosa carrega. Gael decidiu aparecer em sonhos e mostrar à menina a podridão do mundo, os males da carne, as dores que adormecem e pinicam a pele. A sujeira que não sai. Ele apareceu, mostrou, sorriu e desapareceu.
   Alice, sem nada compreender, ficou procurando o buraco para cair, mas já não o encontra. Não são mais apenas os sonhos. Piscar machuca a íris e as pálpebras carregam muito mais lágrimas do que conseguem suportar para se manterem erguidas.
   Acontece que a ingenuidade de Gael não conhece o mundo da mesma forma que Alice conhece. Cada um sofre da maneira que consegue pelos motivos que cada alma mantém. Um dia, talvez, Gael irá embora para sempre e Alice estará caindo constantemente no buraco que a levará ao país das maravilhas. Sem volta. Os sonhos irão se mesclar à realidade e tudo arderá muito mais.
   Ninguém nunca disse que ser anjo era bom. Ninguém nunca explicou que ser humano corrói. Ninguém jamais irá costurar a carne rasgada e limpar o pus que brota fétido da ferida do passado.


sexta-feira, 23 de março de 2018

As verdadeiras cores

   No meio de uma eterna fotografia em preto e branco, brota o meu sorriso trazendo tons doces de um passado que era colorido. Este meu sorrir ainda é teu. Sutilmente, as gotas douradas do sol vão pintando o teu rosto na minha memória e a saudade aperta a garganta. Lágrimas escorrem desenhando aquarelas em meu rosto e eu acho que está tudo bem.
   Respirar ficou mais fácil, de repente. Meu travesseiro se transforma em teu peito e eu sonho com uma pequena família: uma casa simples, patinhas felinas e pés nus de crianças lindas. Tudo é colorido e faz sentido... Mas eu abro os olhos e os tons de cinza reaparecem, porque a realidade não é a mesma de quando eu fecho os olhos.
   Ser feliz às vezes dói, às vezes está longe, às vezes é diferente do que se imagina. Contudo, o crispar leve dos lábios moldando a felicidade ainda existe e eu não vou desistir disso. Passa dia, passa ano e eu sou a tua mulher.