terça-feira, 22 de abril de 2014

Ressaca

A chuva que caiu de mim não foi muito diferente das que choveram outras vezes. Toda a água que cai, cai com a finalidade de deixar o campo mais verde, ou de trazer arco-íris... Eu continuei cinza. Talvez menos escura do que a paisagem, mas continuei cinza. Todas as águas que escorreram vieram das noites, tão claras, que impossibilitaram meu sono. Em cada gota, cada sonho em ressaca, em dúvida, a cair no cimento úmido da construção não concretizada. Tudo o que não vivi e não busquei...

E nada mais que de repente, meu medo desapareceu no teu sorriso e embriagou no açúcar da tua calma, teu jeito de lidar. Teus dedos finos redefiniram meus traços com o sal que já secou. O barro veio a transformar-se em mel, brilhante e puro, estampado na minha retina vazada.
Acalma meu mar e me ergue farol.

quinta-feira, 10 de abril de 2014

A Janela

A janela protagonizou o enlace do negror selvagem da noite com o interior dos nossos âmagos. O céu marinho carregava, esculpido, as gordas nuvens cinzas e ameaçava o mundo com a força de maciças gotas de chuva. Estas, agressivas, cortavam em carne a voz da moça que sempre cantou as ondas invisíveis e tão características do vento.
O sofá moveu-se para melhor assistir o espetacular filme que a natureza ofereceu. Os vidros escancarados trouxeram a escuridão para dentro da nossa escuridão, que iluminava-se com as luzes dos relâmpagos. Nosso silêncio ficou envolto à fumaça das canecas de chá e incessantes clarões desenhavam-se, desnudos, frente às nossas pupilas, rasgando a memória em uma fotografia sinestésica.
Naquela noite, frente à janela, desaguaram os nossos segredos - enquanto o céu manteve o seu.

sábado, 5 de abril de 2014

Asas negras

Por tudo o que ele denominou escuridão eu só enxerguei brilho e luz. Todos os sonhos escondidos nas palavras não ditas, embora expressas, eu compreendi. Eu compreendi todo o sentido de eu estar ali. E não era apenas o meu mar ou as ondas mansas do que um dia foi pesadelo que me trouxeram presente.
Todas as cores, que eram cinzas, flutuaram sobre nós, enquanto que as tintas vivas e frescas escorriam pelos sorrisos brancos. Brancos por serem puros e sinceros, sem o amarelado predominante das mentiras, farsas e podridão. A infinitude do vazio foi-se preenchendo pelo silêncio entupido de sons não expressados e murmúrios não proclamados. O mel vazou dos meus olhos atingindo os lábios dele.

E, assim, embora não extintas, adormeceram as dores e repousou a paz em meu ventre.

sábado, 29 de março de 2014

Youth

As sombras do corpo dele esconderam a luz do dela. Cada segredo escondido deslizou pela ponta dos dedos e não houve sorriso para o mundo exterior até o momento em que escorreu o suor dos copos alcoólicos.
O silêncio fez-se música enquanto as cores desnudavam suas matizes acinzentadas através dos desenhos não pintados das paredes nuas. Alice aceitou a confusão e talvez Beatrice já não fizesse sentido.
A madrugada iluminada pelo arco-íris escondido durou a eternidade singela da ocasião gravada em cicatrizes nas retinas vivas.


And if you're still breathing, you're the lucky ones
'Cause most of us are heaving through corrupted lungs
Setting fire to our insides for fun
Collecting names of the lovers that went wrong
The lovers that went wrong
("Youth" - Daughter)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Litros

E foi exatamente quando eu acreditei que meus lábios se moldavam em um sorriso que o tal sorriso não saiu. E quando me forcei a acreditar que as coisas melhorariam, percebi que sempre seriam as mesmas. Cada lágrima que me doeu foi o sorriso que não te dei. Cada autoflagelo significou a paz que senti.
Simplesmente deixou de fazer sentido e, quando deixou, me vi com o rosto molhado. E ardeu.
Escorreu a fumaça do cigarro e me vi onde eu não sabia que poderia estar. De repente, todos os sonhos coloridos que depositei na escuridão das minhas noites passaram a serem mudos e cinzas. Todas as gargalhadas se tornaram choro e remorso. A maquiagem escorreu, o salto quebrou, o brilho caiu.
Quantos litros bastam para renascer?